29 de mar de 2006

Ao Som de "Carinhoso"


Sexta-feira à noite.

Estou aqui em casa, aproveitando o silêncio quebrado pelo saxofone do vizinho. É sempre uma sensação gostosa ouvi-lo, e me inspira sempre a escrever bobagens.

Ele sempre toca "Carinhoso", em um ritmo mais lento. Não posso assegurar q ele é um mestre em tocar tal instrumento, mas é gostoso ouvi-lo, ele vai conversando com a partitura, pouco a pouco fazendo as pazes e a devorando. Momento melhor é qdo ele acaba de tocar. Explico-me: não estou com isso tentando dizer q é um alívio ele acabar. Muito pelo contrário, o silêncio posterior sempre me dá oportunidade de ficar lembrando da melodia, repassando-a mentalmente e é claro, acrescentar detalhes ao antes sucedido q só minha imaginação fértil e ociosa é capaz!

Mas hoje deparei-me com uma surpresa: o meu saxofonista favorito (q nem sei q idade, preferências ou sexo tem) resolveu, sem nem mesmo saber, me pregar uma peça. Já estava eu aguardando ele começar a tocar "carinhoso", e eu mentalmente começar a acompanhá-lo com "Meu coração...", qdo, de repente, ele se rebela contra as minhas presunções e começa tocando o tema da Pantera Cor de Rosa.

Senti-me inicialmente traída, não vou negar! Desses medos q sentimos qdo algo novo, q foge à rotina q conhecemos - e q no fundo sempre aguardamos q aconteça - finalmente acontece. Mas, pouco a pouco, - pra ser sincera em uma fração mínima de segundos -, já estava feliz por ele aumentar o "nosso" repertório. Já fechei os olhos e comecei a imaginar nosso mais novo dueto. Enquanto aqui escrevo, tenho a agradabilíssima confirmação q a música seguinte é nada mais, nada menos q nossa velha conhecida "Carinhoso". Aaaaaaaaaaai, q deleite bom, como é bom abrir as portas e voltar pra casa. O novo nos dá sempre essa oportunidade. De valorizarmos aquilo q já temos!

Estamos agora na nossa fase 3. Ele (ou ela?), o q estará fazendo nesses minutos q sucedem de silêncio?, estará pensando, como eu?, estará gozando dos instantâneos e preciosos minutos q sucedem de silêncio?, estará tb repassando toda a melodia mentalmente pra ver se a retém, exatamente como foi tocada?...

Não sei.

Alegro-me de termos - eu e ele - mais um convidado para a nossa festa. A partir de hoje aguardarei sempre q ele toque essas suas músicas, para completar minha sexta à noite e fechar sempre mais uma semana - de dores ou delícias.

E, agora, de olhos fechado e imaginando tudo isso, fico me perguntando como duas pessoas podem se completar por alguns instantes - como acontece comigo nesses breves momentos de sexta à noite - e fico tentado imaginar qtas outras duas pessoas podem estar compartilhando de momentos assim nesse exato momento tb.

22 de mar de 2006

Gianechini


Aos primeiros dias de novembro deste ano, houve uma comemoração de aniversário lá no meu trabalho. A minha chefe estava presente, e resolveu relatar um fato que ocorrera com a sua filha - deve ter entre 8 e 12 anos... não tenho certeza!
Mas o fato é que a menina se apaixonou perdidamente pelo Gianechini... perdidamente mesmo!!!!! Em meio aos nossos disfarçados risos, ela contava como tudo acontecera: a menina, certo dia, chegara para a mãe e confessara seu incondicional e febril amor pelo belo rapaz, que sem ele não conseguiria mais viver, que precisava ir vê-lo pessoalmente, que sem isso não conseguiria mais viver.
Nesse mesmo momento, eu pensava: como é bom ser criança, como nos iludimos e pensamos coisas tão bobas, sem nenhum sentido, intangíveis, e eu, em minha infinita arrogância, tive pena da pirralha... pena, como a gente tem de alguém, que anseia algo impossível, ridículo e inimaginável a qualquer pessoa com o mínimo senso.
Então, parei e pensei em minha vida... há poucas semanas, eu acompanhava a trajetória de um certo escritor. Apaixonei-me perdidamente por suas idéias, por suas contradições, por seu (único) sotaque, por seu jeito de movimentar seus lindos lábios e suas expressivas sobrancelhas... Horrorizada, e ao mesmo tempo admirada, comparei-me àquela pirralha. Qual a diferença entre nós???. Não sejamos ingênuos... muitas! Primeiramente, a facilidade de aceitar o fato e achá-lo extremamente normal. Segundamente, porque, apesar de, no fundo do meu ser, eu desejar desesperadamente que houvesse qualquer possibilidade de eu conhecê-lo, infelizmente, para a minha eterna e desgraçada constatação, eu percebi que eu cresci, e um dos maiores temores que eu tinha na minha vida se tornou realidade: eu deixei de acreditar!!!
Ai que dor!! Ai que desilusão!! Ai, que raiva de mim mesma! Apesar de eu desejar, desesperadamente, jamais eu sentiria aquele fio de esperança (saudável), da possibilidade, e me vi morta, sepultada, em meu sentimento.
Sentimento que eu só poderia compartilhar com aquela pirralha, que provavelmente não me criticaria, que me entenderia, que sofreria e alimentaria esperanças comigo.
Senti-me tão agradecida por esse (ridículo?) sentimento, que não me deixava dormir, comer, viver (e eu imaginava que o Gianechini provocava o mesmo sentimento nela).
O fato é que, na minha razão de adulta, tenho a certeza de que nunca poderei conhecê-lo, nem mesmo tirar uma foto e ser feliz para sempre, e nem poderei comprovar se a paixão se resume à admiração ou se é realmente dessas febres que nos consomem para sempre (pára com isso! Nem aos 15 anos, você teria direito a pensar essas bobagens!!)
E, de repente, flagrei-me com inveja daquela pirralha de não sei bem quantos anos, mas que tinha seus mais (ainda) livres sonhos, aspirações, desejos – realizados ou não, mas com muita fé!. E eu, adulta, “equilibrada”, “ponderada”, apenas me sentia extremamente frustrada e com aquele infinito e desolador, desesperado medo (ou certeza!) de que nunca teria meu sonho realizado. Talvez seja isso que me falte... a inocência de acreditar no impossível... pois afinal... quando menos se espera... ele pode nos surpreender e acontecer... será que estamos preparados para vivê-lo?????
Enquanto isso,fico aprisionada aqui, em meu corpo de 30 anos, e com aquela vergonhosa intenção de “regredir” aos meus 12 anos e acreditar que os sonhos podem se tornar realidade, e poderei sorrir, por meros e eternos 10 minutos.
E, caso haja, ainda, alguma dúvida... o Gianechini esteve aqui em minha cidade... e a sonhadora pirralha hoje dorme feliz, e menos atormentada do que eu, abraçada com o seu troféu , a tão desacreditada - e até então risível - foto tirada com seu “muso”.

15 de mar de 2006

O Que Judah Diria a Raskólvikov




Raskólnikof, aos 23 anos, professor de línguas, universitário e residente em São Petersburgo, larga tudo e entrega-se à miséria absoluta, acreditando em uma teoria desenvolvida por ele, e ele mesmo estando disposto a prová-la.

No mundo, segundo ele, existem duas subdivisões de pessoas: as ordinárias e as extraordinárias. Segundo o próprio personagem, “à primeira, pertencem , em geral, os conservadores, os homens de ordem, que vivem na obediência e têm por ela um culto. (...) O segundo grupo compõe-se apenas de homens que transgridem a lei, ou tentam transgredi-la, segundo os casos. Naturalmente os seus crimes são relativos e de uma gravidade variável” .

Raskólnikof acreditava fazer parte do segundo subgrupo. Acreditava que, tendo recursos financeiros, a que custo fosse, tinha a acrescentar à sociedade e à História algo que justificasse os meios de alcançar esses subsídios primários.

Ao descobrir que não era como Napoleão ou César, e que não seria absolvido pela História, nem – principalmente – por si mesmo – Raskólvikof passa por processos de auto flagelação pelas atrocidades cometidas. Nesse percurso, somos convidados a visitar, com ele, becos, tabernas e pequenos cômodos fétidos, povoados de personagens miseráveis – financeira ou espiritualmente - que lutam para preservar sua dignidade contra as várias formas da tirania, como Razumikine; ou seu orgulho e status social, como Petróvitch.

Essa riquíssima narrativa, com tons existencialistas e niilistas, nos leva a questionar em que se constitui, realmente, o castigo. O castigo ao crime - antes de ser a punição aplicada pela sociedade, em busca da pretensa redenção moral - é o caminho que o leva a ela. Ao contrário do que poderia imaginar, todo o tormento físico e psicológico de Raskólnikof consiste na culpa, na não-aceitação, na auto-punição moral ao que fez, ao ponto de ele mesmo precisar se entregar. A partir desse momento, quando lhe é aplicado o castigo da sociedade, acomete-se sobre ele uma sobriedade e percepção de crescimento, de redenção dele para consigo mesmo, e em conseqüência, para com a sociedade com que vive. Nas próprias palavras de Dostoievski, “aqui começa uma segunda história, da lenta transformação da um homem, de sua regeneração, da sua passagem gradual de um mundo para o outro, travando relações com uma nova e até agora completamente desconhecida realidade”.



...



Judah Rosenthal, oftalmologista e um dos pilares da sociedade Nova Iorquina em que vive, vê-se sufocado por um dilema, ao ver seu mundo prestes a desabar quando sua amante, Dolores, ameaça revelar ao público o relacionamento extraconjugal e uma fraude financeira cometida pelo médico, quando o mesmo tenta pôr fim ao caso.

O dilema consiste no dualismo de sentimentos, no conflito vivido por Judah, quando se vê em volta de seus abafados valores religiosos e morais, que julgava não possuir, enfatizados pela voz de seu pai vindo de sua mais distante infância “os olhos de Deus tudo vêem” (terá sido por isso que ele tenha se tornado oftalmologista???). Aturdido com as ameaças da amante, ele busca aconselhamento com o rabino Ben, seu amigo e paciente, e com o irmão, não isento de ligações com pessoas do crime organizado. Enquanto o primeiro – que Woody Allen faz com que, não por acaso, sofra de uma doença que fatalmente irá levá-lo à cegueira (mas nem por isso ficando ele cego à razão!) - lhe sugere a confissão dos pecados; o segundo propõe uma solução mais pragmática: o assassinato da amante, o que acaba sendo posto em prática. Judah baseia-se, então, para justificar seu ato, na frase que considero mais forte do filme: “Deus é um luxo ao qual não posso me dar!”.

Judah, assim como Raskólnikof, faz parte do primeiro subgrupo de seres humanos. A angústia pelos seus erros o consome, e isso o leva a um limbo moral que quase faz com que ele se entregue.

Woody Allen, no seu melhor estilo Ingmar Bergman, proporciona ao seu personagem um desfecho que provavelmente desagradaria Dostoievski. Apesar do crime, da quase confissão e do purgatório moral e quase insustentável a que o personagem é submetido, Judah convive com seus demônios, e, ao longo do tempo, chega até a espaçar a infinita dor e remorso que sente, fingindo por vezes levar uma vida que nunca passou por percalços tão obscuros. Na seqüência final, olhar para o passado através de outro prisma, nos faz perceber o quanto somos capazes de encontrar na vida brilho, mesmo diante de todas as dificuldades:

“Durante toda a nossa vida, enfrentamos decisões penosas, escolhas morais. Algumas delas têm grande peso, a maioria não tem tanto valor assim. Mas definimos nós mesmos pelas escolhas que fizemos. Na verdade, somos feitos da soma total das nossas escolhas. Tudo se dá de maneira tão imprevisível, tão injusta, que a felicidade humana não parece ter sido incluída no projeto da Criação. Somos nós, com a nossa capacidade de amar, que atribuímos sentido a um Universo indiferente. Assim mesmo, a maioria dos seres humanos parece ter a habilidade de continuar lutando e até encontrar prazer nas coisas simples, como sua família, seu trabalho, e na esperança de que as futuras gerações alcancem uma compreensão maior.”



O Livro: Crime e Castigo – Fiódor Dostoievski

O Filme: Crimes and Misdemeanors (Crimes e Pecados) – Woody Allen - 1989

8 de mar de 2006

Isabel Allende e Seu País Inventado



Acabo de ler MEU PAÍS INVENTADO, de Isabel Allende.

Apaixonei-me – dessas paixões arrebatadoras à primeira vista – por seus romances quando li A CASA DOS ESPÍRITOS, seu primeiro publicado. Desde então, tenho aguardado a cada ano, com a mesma ansiedade com que aguardo um novo filme do Woody Allen, seus novos livros.

Isabel Allende fala em seus romances sobre amor, perdas, sobrevivências, lutas, fé... características visivelmente exacerbadas em nós, latinos! Usa as mãos, mas certamente escreve com o coração. E assim foi também com DE AMOR E DE SOMBRAS, EVA LUNA, CONTOS DE EVA LUNA, O PLANO INFINITO, PAULA (em minha opinião, este e A CASA DOS ESPÍRITOS são imbatíveis!), AFORDITE (uma deliciosa e afrodisíaca mistura de receitas e contos), FILHA DA FORTUNA, RETRATO EM SÉPIA, e tantos outros, também apaixonantes.

É impossível não se envolver com seus personagens excêntricos. Sempre que começo a ler - ou reler – um de seus romances, tenho a sensação que estou sentada, tomando chá em uma tarde nublada de domingo e conversando com ela, seus personagens e fazendo parte de suas tramas. Pego-me freqüentemente frustrada por não poder opinar sobre alguns destinos.

Mas voltando ao MEU PAÍS INVENTADO, Isabel Allende passeia descrevendo a saudade, a nostalgia, o abandono, a vontade de regressar diante da impossibilidade – tema também lindamente descrito pelo Millan Kundera, em A IGNORÂNCIA -, a forma como a nostalgia faz-nos lembrar de coisas que nunca aconteceram, de como lembramos, de forma turva de certos fatos e situações, e, finalmente, de que somos nós os países, as fronteiras, as crenças, os costumes... e carregaremos essa bagagem para onde quer que vamos!

Durante esse passeio pelo livro, fica difícil não se encantar com o Chile, ou com o Chile visto através de seus olhos. Durante a viagem, pegam carona com ela figuras como Pablo Neruda, Violeta Parra, e outros que cantam a dor e o amor de forma belíssima e comum a todos nós.

Não creio ser possível terminar essa leitura e não fazermos, cada um de nós, o perfil de nossas vidas, e de nosso país... inventados!

1 de mar de 2006

Um Pingo de Pablo



Meu desejo é ter Pablo.
Pablo é um rapaz que conheci há algum tempo. No dia em que o vi dançando, sem a mínima graça ou harmonia, movendo-se de forma despretensiosa, totalmente alheio ao ritmo da música, soube que ele havia sido feito para mim.
Aliás, se eu fosse uma deusa, faria um igualzinho só pra mim. Mas, como Pablo não está à venda - e, certamente, se estivesse, eu não iria querer - , contento-me com o meu Pingo.
Pingo é o meu simpático cachorrinho, com quem brinco e em quem dou banho de mangueira em domingos ensolarados. Desses em que tomamos banho os dois , lambuzados na grama.
Ideal mesmo seria poder fazer esse programinha lambuzada com Pablo. Mas aí já seria outro desejo... serve desejo duplo??????