16 de mai de 2008

Por Que Escrevo?, Porque Sim!!




Milan Kundera, em seu romance O LIVRO DO RISO E DO ESQUECIMENTO, relata um encontro com um taxista - em um desses dias comuns que todos nos temos -, em que o taxista confessa a ele que também eh um escritor, mas que precisa trabalhar para manter a sua família. E Kundera pergunta: então por que você escreve?. O taxista, com naturalidade, responde que escreve porque não tem opção, porque eh a única forma que ele acha de ser ouvido.
Em um mundo em que ninguém se escuta, ou pelo menos a maioria das pessoas não consegue se comunicar da forma que gostaria, em que não se tem como falar, ou mesmo não se sabe como, eh preciso falar para ninguém, escrever para ninguém e ao mesmo tempo para todo mundo, para ser ouvido, para se expressar, para se ter a sensação de criar um canal mínimo de interação com o mundo e principalmente consigo mesmo.
Pessoas que escrevem não o fazem necessariamente porque gostam, mas porque não conhecem outro meio de dizer eu estou aqui, eu preciso falar, eu não sei como falar, mas eu preciso dizer aquilo que nem eu mesmo sei, aquilo que me angustia, que me consome ou que me faz rir, que me faz acordar entre suor e lagrimas no meio da noite fria, que me faz sentir um no indescritível na garganta, uma euforia quase incontrolável, uma dor fina no estomago, um gosto de ferro na boca, uma tristeza de solidão - solidão rodeada de pessoas, solidão mesmo com corpos colados, solidão porque não se consegue definir o sentimento com outra palavra, pois esta ainda não foi criada. As palavras se tornam poucas; os verbos, inexpressivos; e os adjetivos, brancos. O gesto de interjeição não eh compreendido, o sorriso de interrogacao ou o olhar com reticencias perdem a razão de ser, restando apenas muitos parágrafos entre pessoas... tantos parágrafos!
E como diminuir tantos parágrafos?, como se redimir ou conviver com os parágrafos?, como expressar sentimentos que muitas vezes se sente, e apenas se sente e ponto...como? Assim... escrevendo. Escrevendo podemos nos transportar, com bússola, para uma outra dimensão, silenciosa e doce, cheia de pequenas portas que, quando abertas, emanam feixes de luz de diferentes cores em diferentes angulos. Escrevendo podemos esquecer de tudo, e assim lembrar o essencial; liberar nosso alter ego e assim mante-lo adormecido; escrevendo podemos voar sem asas, sofrer ou sorrir com consentimento.
Escrever, portanto, pode ser comparável a um dia ensolarado nadando na piscina gostosa, aquela taca de vinho saboreada no fim do dia, ao momento de paixão fulminante, a um grito no meio da noite silenciosa, a uma pausa - quando o mundo ao seu redor congela por prazerosos momentos. Escrever eh dançar na chuva mesmo estando gripado, eh o ansiosamente esperado veredicto de absolvicao. Eh liberar o que nem se sabia preso. Eh quando tudo que sempre pareceu tão pequeno toma dimensões gigantescas e não mais pode ser ignorado, porque de repente reluz. Eh quando tudo que eh palpável se torna pouco e tolo, pois passa a ser tão obvio que, como disse Marshall Berman , tudo que eh sólido se desmancha no ar.
Escrever nao eh uma opção. Escrevo para ser ouvida, para poder falar, para me conhecer, para me perder e me esquecer, e também para me encontrar, porque soh o espelho não me reflete. Escrevo para celebrar o novo e também para não esquecer o que eh perene. Escrevo para suportar as dores e bendizer as delicias. Escrevo para respeitar, mas me permitindo transgredir, desmedidamente. Escrevo para gritar, e ao mesmo tempo, para calar esse grito. Escrevo porque não caibo em mim, quando ao mesmo tempo me perco aqui dentro. Escrevo porque muitas vezes nem mesmo sei por que escrevo. Escrevo para me sentir, momentaneamente, parte de algo, pois se a vida fosse um magnífico concerto, eu gostaria de me sentir parte da orquestra, e não mais ter essa sensação eterna de estrangeira em qualquer lugar.
Escrevo porque preciso gastar meus caracteres; porque, mesmo entre palavras mal escritas, confusas, perdidas e semanticamamente distorcidas, eu me acho, antes de me perder novamente, e começar tudo de novo, por entre esses verbetes.