5 de out de 2008

Sim. Por que nao???


Em uma era em que se cogita catalogar seres humanos a partir da insercao de microchips subcutaneos, creio que nao seria nada inviavel termos um cartao com o nosso proprio extrato.

Deixa eu me explicar melhor, que a minha ideia nao se remete aquelas longas listas cheias de numeros (muitas vezes vermelhos!) com nosso balanco bancario. Nao necessariamente.

A ideia comecou assim, de manhazinha, quando eu ainda mal havia acordado e jah me via jogada no asfalto, tendo que respeitar leis de transito e coordenadas longitudinais. Comecou quando entrei no cafe onde sempre compro meu muffin e meu capuccino. Ao comprar, a atendente me pede o meu cartao (do cafe) e insere nele as informacoes sobre o meu pedido. Atraves desse cartao, eh possivel para mim saber o que eu comi, quando comi, quanto paguei, e a que horas, mais precisamente. Eu tenho uma senha (!!) para acesso na internet do extrato da minha comilanca matinal. Eu entro lah no site do cafe, toda bonitinha, e vejo meu extrato da ultima semana, ou quantos cafes com leite eu tomei nos ultimos 10 dias – e se o leite foi desnatado -, ou quanto eu gastei em media por dia no ultimo mes. Eh o fim da privacidade... de mim, para comigo mesma, e tambem para com os atendentes do cafe.

Dando continuidade a minha manha, eh hora de entrar no onibus. Neste, nao compro um ticket, passo meu cartao da empresa de transporte, que automaticamente debita o valor do trajeto de uma soma previa que eu havia colocado como credito. Tudo muito bom, tudo muito lindo. Ao chegar em casa, entro no site da empresa de transportes, e... tcharaaaaaaaaaan!, lah estah de novo, o bendito extrato, me informando de que horas eu peguei que onibus e aonde eu fui. Assim como os atendentes do cafe, o pessoal da empresa de transportes tambem estah apar da minha rotina - e ateh dos meus pequenos pecados. Se voce desconfia que seu conjuge anda mentindo pra voce, aponta uma arma na cabeca dele e manda ele abrir o extrato, nao tem erro!!

Nao vou nem entrar em muitos detalhes sobre o que vislumbro para um futuro nao muito distante. A banca onde compro revistas, ou a loja onde compro meu livros e DVD's, por exemplo. Vai estar tudo devidamente registrado!

Imagina qualquer dia desses eu passando pelo vexame de querer comprar uma revista na banca (e aqui repito, isso deve acontecer em um futuro proximo!), e o atendente, com meu cartao na mao, me explicar que eu jah comprei a mesma (mesminha!) revista ha tres dias. O vexame vai ser tao grande, de ter que me explicar com aquele rapaz com metade da minha idade, dizer a ele que eu simplesmente perdi a maldita revista e quero comprar outra, que provavelmente vou deixar pra lah, e nao vou comprar a revista por nao querer discutir com a porra do cartao - eh a minha palavra contra o extrato!

Eh o fim do esquecimento, eh a guerra contra o mal de Alzheimer ou a displicencia. Eh o Big Brother sem desfile de mulheres seminuas ou eliminacao semanal.

E eh no meio de toda essa guerra de dados que vem a minha brilhante ideia, a minha epifania do mes... por que nao criar um cartao pessoal, onde inserimos as relacoes interpessoais?, no extrato apareceriam informacoes como “no dia 30 de maio, as 15h22, me desentendi com o Maricotinha pelo motivo tal”, ou ainda “as 21h30 do dia 16 de agosto, Fulaninho me prometeu amor eterno”.

Nao vou aqui fingir falsa humildade... a minha ideia eh simplesmente fantastica, a melhor ideia de todos os tempos, uma revolucao nas relacoes!! Mal caibo em mim de tanto orgulho! Jah pensou?, jah posso ateh me imaginar em confrontos futuros. Justo eu, que sou pessima em discussoes, nunca lembro os motivos anteriores, os argumentos corretos a serem usados. No meio do circo pegando fogo, eh soh pedir licenca, acessar o seu extrato e mostrar a outra pessoa: “olha aqui, no dia tal foi ISSO que aconteceu, entao estamos aqui apenas gastando oxigenio com um assunto que jah estah resolvido por si soh”.

Eh claro que cada um de nos teria que andar com uma maquininha (inha, inha, inha), e ao final de casa interacao, cada conversa, discussao ou acordo fechado, as partes passariam seus cartoes individuais na tal maquininha e tchum!, estaria lah tudo registrado, sem versoes diferentes, sem distorcoes ou hiperboles.

Alguem pode me questionar que nao eh nada pratico carregar uma maquininha pra todo canto. E aqui repito, eh uma maquiniiiiiiiiiiinha, pequeniniiiiiiiiiiiiinha... o que eh carregar uma maquininha a mais para quem jah tem que carregar tantos cartoes, tantos documentos?

E quantos aos pequenos pecados, as suculentas omissoes do nosso dia a dia??, eh simples!!, nao registra!!, eh soh usar o mesmo argumento ora usado pelas empresas “Sinto muito, senhor, mas o sistema estah fora do ar, e nao temos previsao de quando voltara a funcionar, mas o senhor pode aguardar enquanto verificamos de novo!”, e logo em seguida coloca aquela musica de elevador, que faz qualquer cristao desistir de esperar nem que seja um minuto (sim, a maquininha tambem teria saida de audio!).

Diminuiriam os argumentos infindaveis, os perrengues amorosos, as picuinhas, os mal entendidos, as fofocas sem fundamento. Se nao estah no extrato eh porque nao aconteceu. “Estah no extrato, logo existe!”, jah posso ver em letras douradas.

Mas agora peco licenca, preciso acessar o site do cafe, pois em alguns minutos estarei lah de novo, e preciso saber se tenho credito suficiente no cartao, ou se preciso recarrega-lo antes de pedir o meu bolinho.

Ah... comprar cafe jah nao eh tao simples como antigamente!!