18 de jul de 2007

Focas, Petroleo, Lagrimas e Outras Banalidades






O que motiva, emociona, desgosta ou encanta o ser humano eh sempre muito subjetivo e inusitado. As vezes acoes, acontecimentos decisivos e ateh desconcertantes sao digeridos por nos com certa casualidade, enquanto fatos considerados um tanto banais nos desconcertam e mudam decisivamente o rumo de nossas vidas.
E eh assim que introduzo o episodio da foca na conversa. A foca... ela estava lah, como todos os dias, preta, com a pele com aspecto viscoso, cheirando a maresia, se preparando para entrar em cena e ignorando o fato de haver dezenas de pessoas na arquibancada prontas para aplaudir as suas piruetas. E eh ai q eu me introduzo no assunto. Eu... que estava lah com amigos, dentre tantos outros espectadores, para ver o show da foca e me deliciar com as suas brincadeiras. Como jah chegamos meio atrasados, nao nos restou opcao senao sentarmos em uma arquibancada mais distante, lah em cima. O degrau da arquibancada imediatamente seguinte ao nosso estava interditado, o que nos obrigou a ficar em um lugar nao tao espacoso, e, consequentemente, nao tao confortavel.
Mas voltando a foca: a foca nao fez a sua primeira e ansiosamente aguardada aparicao no imenso tanque azul a alguns metros de nos... ela vinha, subindo alguns degraus laterais, seguindo o seu adestrador, e atravessou a arquibancada, justamente, exatamente, no degrau seguinte ao nosso, que estava ha ateh alguns minutos interditado. E eh ai que introduzo a razao dessas linhas que preencho: o meu encontro com a foca!. Ela passou exatamente ao meu lado, se arrastanto, carregando com esforco e certa graca o seu imenso corpo, em busca de mais sardinhas. E eu a olhei, enquanto ela distraidamente se movia, e meus olhos encheram de agua, e foi inevitavel nao comecar a chorar. Um choro silencioso, mas impossivel de ser contido, que durou os quarenta de minutos do belo espetaculo. No comeco, atribui o meu choro a comocao, ou ao fato de ter-me lembrado da musica do Vinicius de Moraes (que menciona um show de focas onde a foca brasileira desmaia por ser pobre e nao poder comprar sardinhas!!). Mas depois, jah nao sabia se chorava por causa da foca, ou pelo constrangimento de ser o unico ser humano a chorar, dentre tantos outros aparentemente alheios ao que acontecia comigo. Ao sair do show, analisando o que tinha acabado de me acontecer, cheguei a brilhante conclusao que em minha vida passada eu fui uma foca! Soh nao consegui ainda chegar a uma conclusao sobre se o fato de ter sido foca em uma vida passada e Lisavieta nessa vida configura uma evolucao ou nao.
Mas esse evento ainda nao desabitou a minha mente, e vez ou outra me lembro da foquinha e de mim, de nossa troca de olhares que definitivamente afetou a minha vida. Lembrar desse episodio eh, por muitas vezes, o ponto mais alto de meu dia, aquele em que sinto um vazio que me preenche de uma felicidade indescritivel!!
Mas ha dias em que um outro evento se torna maior e mais belo, a ponto de desbancar o evento da foquinha, e eh aqui que o introduzo. Estou trabalhando com um casal com sindrome de Down. Eles sao uns fofos, e eu jah disse a minha coordenadora que a vontade que eu tenho eh de adota-los. Ela sempre ri quando eu menciono isso, achando que se trata de uma brincadeira. Dentre todos os desafios que tenho vivido em meu trabalho, certamente jogar playstation e compartilhar de ensinamentos milenares sobre Tartarugas Ninja, Pokemon ou Homem Aranha tem sido dos mais interessantes. Interessante tambem, eh velos dando o beijo de despedida todos os dias de manha, antes de a esposa sair para o trabalho e o marido ficar em casa, para resolver questoes bancarias e outras acoes cotidianas com o meu auxilio. Mas, voltando ao beijo... ve-los dando o beijo de despedida tem sido por muitas vezes o ponto alto do meus dias, desbancando a minha nao esquecida foquinha!
E quando eu achava que nao havia mais nada para acontecer, ontem houve outro fato que desbancou os dois jah previamente citados. Eu estava com a esposa, e ia ajuda-la a passar o creme facial que ela coloca diariamente para proteger a sua pele do frio, quando ela me falou que jah se sentia a vontade para passar o creme sozinha, desde que eu ficasse ao seu lado, para auxilia-la com alguma eventual indicacao. E ve-la passando sozinha o creme, se olhando maravilhada no espelho, com mais essa responsabilidade que ela podia assumir, me deu o mesmo aperto de vazio feliz no meu peito. Aquela expressao de vitoria dela, de quem acaba de achar petroleo no meio do quintal, me fez ter uma vontade quase incontrolavel de chorar de novo.
Mas dessa vez, neguei-me terminantemete a cogitar ter sido um creme facial em uma outra vida, e consegui segurar meu choro!