16 de dez. de 2008

Poeticos Dias de Sol




E a historia comeca e termina do mesmo jeito: no susto, na garganta apertada, nas maos suando frio.
O primeiro evento que relato com as caracteristicas acima citadas eh a noite de ontem. Ha dias, venho querendo ligar o meu sonzinho com uma lista de musicas no meu ipod, deixar baixinho, para adormecer e acordar ouvindo. Eu fiz uma selecao de musicas (jazz, musica caribenha, mpb, opera, Enya, blues...) para tocarem pelas horas em que eu estiver dormindo. E, por algum motivo que eu nunca vou entender, eu consegui colocar uma musica do Guns’n Roses no meio dessa selecao. Nao me levem a mal, eu gosto do Guns’n Roses, mas ter acordado as 2.34 da manha com o grito do Axl Rose (Welcome to the Jungleeeeeeeeeeeeeeeee), nao foi exatamente o que eu tinha planejado quando selecionei a lista de musicas para dormir.
E dai eu acordei, nao da forma que as pessoas acordam nos comerciais de margarina – afinal, tons muito agudos nao costumam me ajudar a relaxar!. Acordei e, em vez de desligar o som ou passar para a musica seguinte, eu sentei na cama e pacientemente ouvi o Axl cantar (ele foi muito bem pago para isso!). Quando ele terminou, e ia entrar o Srta Norah Jones, eu simplesmente voltei e repeti a musica dele. Por que?, a resposta eh simples, e eh a mesma que responde a maioria das grandes questoes de minha vida: “Sei la!!!”. Repeti a musica e fiquei la, meditando, resolvendo as grandes questoes da minha vida.
Comecei a pensar em quantas criancas naquele momento nao tinham onde dormir, nao tinham a oportunidade de ouvir o Axl Rose cantar as 2.34 da manha, morriam de fome, desinteria ou esquecimento; enquanto eu estava ali, ouvindo a musica pela segunda ou terceira vez. Pensei tambem em todos os ingredientes que ainda tenho que comprar para assar a droga do peru de Natal. Mas uma vez, peco: nao me levem a mal... eu ADORO assar o peru de Natal, eh um ritual que me da muita satisfacao, primeiro porque gosto mesmo de cozinhar (apesar de muitas vezes obter resultados duvidosos!), e segundo porque me lembra a minha maezinha, e a gente assando o peru de Natal juntas, eh uma forma estranha de me sentir perto dela. O que me irrita profundamente sobre o peru de Natal (bem mais do que acordar com os berros do roqueiro) eh o processo que antecede assar o peru: comprar o peru, comprar todos os ingredientes para temperar o peru, deixar o peru descongelando durante horas, marinar o peru periodicamente por 8 horas, tratar o peru com carinho e rezar para acertar na receita...
Depois veio a culpa - e nao tem erro: nada como uma boa dose de culpa pra dar aquele no na garganta!-. Como eh que pode, enquanto tantas criancas morrem de fome nesse exato momento, eu estar aqui tao preocupada se jah comprei canela e gergelim para (de novo!) a droga do peru de Natal?
O que seria de mim sem a minha culpa catolica?, nao sei!! No dia (hipoteticamente) em que a Igreja banir a culpa, e nos libertar de todo e qualquer sentimento de debito, acho q serah o fim da minha vida – assim como tambem o seria se o casamento do Brad Pitt e da Angelina Jolie acabasse ou se alguem publicasse a formula original da Coca-Cola!
A minha culpa catolica nao me impede de fazer nada, ela me leva a ponderar se devo ou nao, a considerar mais de uma vez, tentar ver as circunstancias sob outras oticas, e refletir, refletir, refletir... porque seja la qual for a decisao que eu tomar, sempre, havera uma decisao mais apropriada que poderia ter sido tomada – ou uma forma mais conveniente de se assar o peru. A minha cruz eh formada pelas frustracoes, aspiracoes, decepcoes (verticais), e pelo que eventualmente foi alcancado e fez alguma diferenca em alguma estagio para alguem (horizontais). Eh uma cruz muito alta, mas nao tao dificil de se carregar!
Um outro momento em que me senti com as maos suando, com no na garganta foi ha duas ou tres semanas, quando eu estava em uma livraria, escolhendo algo para comprar. Diante daquela infinidade de prateleira e de opcoes, eu me dei conta de quantas obras existem, quantas eu gostaria de ler, que nunca havera tempo suficiente para eu ler tudo o que eu quero, e mesmo que, hipoteticamente, eu parasse tudo o mais na minha vida e encontrasse tempo para ler todos os livros daquela loja que me interessam... a cada dia serao publicados mais e mais, novos volumes, de forma que a vida vai ser sempre uma compilacao de frustracoes. De repente a vida se tornou tao curta perto de tudo a se fazer, e tao longa perto de tanta complicacao. E o pior foi constatar que o mesmo vai acontecer sempre em outras esferas – bem mais subjetivas que livros – em minha vida.
Senti um panico tao grande dentro da livraria, e ao mesmo tempo uma vontade histerica quase irresistivel de comecar a cantar – como em um musical do Lars Von Trier – jogando todos os livros para o ar.
Eh claro que esse banquete de bobagens soh aconteceu em minha imaginacao, tendo em vista que aqui nao relato nenhuma prisao ou multa por estupidez em plena luz do dia!
E esses momentos, esses pequenos momentos que enquanto acontecem parecem tao grandes que nem conseguimos dimensionar direito, eh q trazem a beleza e a magia dos demais dias, onde percebemos que tudo o mais do que contemplar o infinito - a perfeicao da vida em seus desencontros e sustos - eh pequeno, e vai se desmanchar no ar, em um poetico dia de sol. Aguardo por mais um conjunto de dias (2009), onde farei planos, projetos, realizarei menos de metade deles, mas talvez eu consiga realizar – finalmente – aquele projeto de 2003... sei la!
Ainda nao modifiquei a lista de musicas que escutarei a noite, e nao sei se o farei ou se aguardarei novamente ser acordada pelo berro do roqueiro, na esperanca de no meio da noite ter uma dessas epifanias capazes de mudar as nossas vidas! – e soh em cogitar essa possibilidade, jah sinto o frio na barriga.

5 de out. de 2008

Sim. Por que nao???


Em uma era em que se cogita catalogar seres humanos a partir da insercao de microchips subcutaneos, creio que nao seria nada inviavel termos um cartao com o nosso proprio extrato.

Deixa eu me explicar melhor, que a minha ideia nao se remete aquelas longas listas cheias de numeros (muitas vezes vermelhos!) com nosso balanco bancario. Nao necessariamente.

A ideia comecou assim, de manhazinha, quando eu ainda mal havia acordado e jah me via jogada no asfalto, tendo que respeitar leis de transito e coordenadas longitudinais. Comecou quando entrei no cafe onde sempre compro meu muffin e meu capuccino. Ao comprar, a atendente me pede o meu cartao (do cafe) e insere nele as informacoes sobre o meu pedido. Atraves desse cartao, eh possivel para mim saber o que eu comi, quando comi, quanto paguei, e a que horas, mais precisamente. Eu tenho uma senha (!!) para acesso na internet do extrato da minha comilanca matinal. Eu entro lah no site do cafe, toda bonitinha, e vejo meu extrato da ultima semana, ou quantos cafes com leite eu tomei nos ultimos 10 dias – e se o leite foi desnatado -, ou quanto eu gastei em media por dia no ultimo mes. Eh o fim da privacidade... de mim, para comigo mesma, e tambem para com os atendentes do cafe.

Dando continuidade a minha manha, eh hora de entrar no onibus. Neste, nao compro um ticket, passo meu cartao da empresa de transporte, que automaticamente debita o valor do trajeto de uma soma previa que eu havia colocado como credito. Tudo muito bom, tudo muito lindo. Ao chegar em casa, entro no site da empresa de transportes, e... tcharaaaaaaaaaan!, lah estah de novo, o bendito extrato, me informando de que horas eu peguei que onibus e aonde eu fui. Assim como os atendentes do cafe, o pessoal da empresa de transportes tambem estah apar da minha rotina - e ateh dos meus pequenos pecados. Se voce desconfia que seu conjuge anda mentindo pra voce, aponta uma arma na cabeca dele e manda ele abrir o extrato, nao tem erro!!

Nao vou nem entrar em muitos detalhes sobre o que vislumbro para um futuro nao muito distante. A banca onde compro revistas, ou a loja onde compro meu livros e DVD's, por exemplo. Vai estar tudo devidamente registrado!

Imagina qualquer dia desses eu passando pelo vexame de querer comprar uma revista na banca (e aqui repito, isso deve acontecer em um futuro proximo!), e o atendente, com meu cartao na mao, me explicar que eu jah comprei a mesma (mesminha!) revista ha tres dias. O vexame vai ser tao grande, de ter que me explicar com aquele rapaz com metade da minha idade, dizer a ele que eu simplesmente perdi a maldita revista e quero comprar outra, que provavelmente vou deixar pra lah, e nao vou comprar a revista por nao querer discutir com a porra do cartao - eh a minha palavra contra o extrato!

Eh o fim do esquecimento, eh a guerra contra o mal de Alzheimer ou a displicencia. Eh o Big Brother sem desfile de mulheres seminuas ou eliminacao semanal.

E eh no meio de toda essa guerra de dados que vem a minha brilhante ideia, a minha epifania do mes... por que nao criar um cartao pessoal, onde inserimos as relacoes interpessoais?, no extrato apareceriam informacoes como “no dia 30 de maio, as 15h22, me desentendi com o Maricotinha pelo motivo tal”, ou ainda “as 21h30 do dia 16 de agosto, Fulaninho me prometeu amor eterno”.

Nao vou aqui fingir falsa humildade... a minha ideia eh simplesmente fantastica, a melhor ideia de todos os tempos, uma revolucao nas relacoes!! Mal caibo em mim de tanto orgulho! Jah pensou?, jah posso ateh me imaginar em confrontos futuros. Justo eu, que sou pessima em discussoes, nunca lembro os motivos anteriores, os argumentos corretos a serem usados. No meio do circo pegando fogo, eh soh pedir licenca, acessar o seu extrato e mostrar a outra pessoa: “olha aqui, no dia tal foi ISSO que aconteceu, entao estamos aqui apenas gastando oxigenio com um assunto que jah estah resolvido por si soh”.

Eh claro que cada um de nos teria que andar com uma maquininha (inha, inha, inha), e ao final de casa interacao, cada conversa, discussao ou acordo fechado, as partes passariam seus cartoes individuais na tal maquininha e tchum!, estaria lah tudo registrado, sem versoes diferentes, sem distorcoes ou hiperboles.

Alguem pode me questionar que nao eh nada pratico carregar uma maquininha pra todo canto. E aqui repito, eh uma maquiniiiiiiiiiiinha, pequeniniiiiiiiiiiiiinha... o que eh carregar uma maquininha a mais para quem jah tem que carregar tantos cartoes, tantos documentos?

E quantos aos pequenos pecados, as suculentas omissoes do nosso dia a dia??, eh simples!!, nao registra!!, eh soh usar o mesmo argumento ora usado pelas empresas “Sinto muito, senhor, mas o sistema estah fora do ar, e nao temos previsao de quando voltara a funcionar, mas o senhor pode aguardar enquanto verificamos de novo!”, e logo em seguida coloca aquela musica de elevador, que faz qualquer cristao desistir de esperar nem que seja um minuto (sim, a maquininha tambem teria saida de audio!).

Diminuiriam os argumentos infindaveis, os perrengues amorosos, as picuinhas, os mal entendidos, as fofocas sem fundamento. Se nao estah no extrato eh porque nao aconteceu. “Estah no extrato, logo existe!”, jah posso ver em letras douradas.

Mas agora peco licenca, preciso acessar o site do cafe, pois em alguns minutos estarei lah de novo, e preciso saber se tenho credito suficiente no cartao, ou se preciso recarrega-lo antes de pedir o meu bolinho.

Ah... comprar cafe jah nao eh tao simples como antigamente!!

16 de mai. de 2008

Por Que Escrevo?, Porque Sim!!




Milan Kundera, em seu romance O LIVRO DO RISO E DO ESQUECIMENTO, relata um encontro com um taxista - em um desses dias comuns que todos nos temos -, em que o taxista confessa a ele que também eh um escritor, mas que precisa trabalhar para manter a sua família. E Kundera pergunta: então por que você escreve?. O taxista, com naturalidade, responde que escreve porque não tem opção, porque eh a única forma que ele acha de ser ouvido.
Em um mundo em que ninguém se escuta, ou pelo menos a maioria das pessoas não consegue se comunicar da forma que gostaria, em que não se tem como falar, ou mesmo não se sabe como, eh preciso falar para ninguém, escrever para ninguém e ao mesmo tempo para todo mundo, para ser ouvido, para se expressar, para se ter a sensação de criar um canal mínimo de interação com o mundo e principalmente consigo mesmo.
Pessoas que escrevem não o fazem necessariamente porque gostam, mas porque não conhecem outro meio de dizer eu estou aqui, eu preciso falar, eu não sei como falar, mas eu preciso dizer aquilo que nem eu mesmo sei, aquilo que me angustia, que me consome ou que me faz rir, que me faz acordar entre suor e lagrimas no meio da noite fria, que me faz sentir um no indescritível na garganta, uma euforia quase incontrolável, uma dor fina no estomago, um gosto de ferro na boca, uma tristeza de solidão - solidão rodeada de pessoas, solidão mesmo com corpos colados, solidão porque não se consegue definir o sentimento com outra palavra, pois esta ainda não foi criada. As palavras se tornam poucas; os verbos, inexpressivos; e os adjetivos, brancos. O gesto de interjeição não eh compreendido, o sorriso de interrogacao ou o olhar com reticencias perdem a razão de ser, restando apenas muitos parágrafos entre pessoas... tantos parágrafos!
E como diminuir tantos parágrafos?, como se redimir ou conviver com os parágrafos?, como expressar sentimentos que muitas vezes se sente, e apenas se sente e ponto...como? Assim... escrevendo. Escrevendo podemos nos transportar, com bússola, para uma outra dimensão, silenciosa e doce, cheia de pequenas portas que, quando abertas, emanam feixes de luz de diferentes cores em diferentes angulos. Escrevendo podemos esquecer de tudo, e assim lembrar o essencial; liberar nosso alter ego e assim mante-lo adormecido; escrevendo podemos voar sem asas, sofrer ou sorrir com consentimento.
Escrever, portanto, pode ser comparável a um dia ensolarado nadando na piscina gostosa, aquela taca de vinho saboreada no fim do dia, ao momento de paixão fulminante, a um grito no meio da noite silenciosa, a uma pausa - quando o mundo ao seu redor congela por prazerosos momentos. Escrever eh dançar na chuva mesmo estando gripado, eh o ansiosamente esperado veredicto de absolvicao. Eh liberar o que nem se sabia preso. Eh quando tudo que sempre pareceu tão pequeno toma dimensões gigantescas e não mais pode ser ignorado, porque de repente reluz. Eh quando tudo que eh palpável se torna pouco e tolo, pois passa a ser tão obvio que, como disse Marshall Berman , tudo que eh sólido se desmancha no ar.
Escrever nao eh uma opção. Escrevo para ser ouvida, para poder falar, para me conhecer, para me perder e me esquecer, e também para me encontrar, porque soh o espelho não me reflete. Escrevo para celebrar o novo e também para não esquecer o que eh perene. Escrevo para suportar as dores e bendizer as delicias. Escrevo para respeitar, mas me permitindo transgredir, desmedidamente. Escrevo para gritar, e ao mesmo tempo, para calar esse grito. Escrevo porque não caibo em mim, quando ao mesmo tempo me perco aqui dentro. Escrevo porque muitas vezes nem mesmo sei por que escrevo. Escrevo para me sentir, momentaneamente, parte de algo, pois se a vida fosse um magnífico concerto, eu gostaria de me sentir parte da orquestra, e não mais ter essa sensação eterna de estrangeira em qualquer lugar.
Escrevo porque preciso gastar meus caracteres; porque, mesmo entre palavras mal escritas, confusas, perdidas e semanticamamente distorcidas, eu me acho, antes de me perder novamente, e começar tudo de novo, por entre esses verbetes.

19 de out. de 2007

A Brincadeira


A Larissa, em seu charmoso cafofo virtual, sugeriu a seguinte brincadeira...


1ª) Pegar um livro próximo (PRÓXIMO, não procure)
2ª) Abrir na página 161;
3ª) Procurar a 5ª frase completa;
4ª) Postar essa frase em seu blog;
5ª) Não escolher a melhor frase nem o melhor livro;
6ª) Repassar para outros 5 blogs.


E aqui vai, a do livro UM FILME EH PARA SEMPRE, do Ruy Castro, presente inusitado e delicioso de outra querida (Alana).


Na pagina 161, especificamente, o trecho refere-se ao Groucho Marx:


"A palavra agressiva e mortal era a sua grande arma - mais ate do que os oculos, o bigode pintado, o charuto e o jeito hilariante de andar."


Fiquei curiosa, "matutando ca com os meus botoes" e tentando fazer uma imagem abstrata da figura interessantissima e colorida a partir dessa descricao...

18 de jul. de 2007

Focas, Petroleo, Lagrimas e Outras Banalidades






O que motiva, emociona, desgosta ou encanta o ser humano eh sempre muito subjetivo e inusitado. As vezes acoes, acontecimentos decisivos e ateh desconcertantes sao digeridos por nos com certa casualidade, enquanto fatos considerados um tanto banais nos desconcertam e mudam decisivamente o rumo de nossas vidas.
E eh assim que introduzo o episodio da foca na conversa. A foca... ela estava lah, como todos os dias, preta, com a pele com aspecto viscoso, cheirando a maresia, se preparando para entrar em cena e ignorando o fato de haver dezenas de pessoas na arquibancada prontas para aplaudir as suas piruetas. E eh ai q eu me introduzo no assunto. Eu... que estava lah com amigos, dentre tantos outros espectadores, para ver o show da foca e me deliciar com as suas brincadeiras. Como jah chegamos meio atrasados, nao nos restou opcao senao sentarmos em uma arquibancada mais distante, lah em cima. O degrau da arquibancada imediatamente seguinte ao nosso estava interditado, o que nos obrigou a ficar em um lugar nao tao espacoso, e, consequentemente, nao tao confortavel.
Mas voltando a foca: a foca nao fez a sua primeira e ansiosamente aguardada aparicao no imenso tanque azul a alguns metros de nos... ela vinha, subindo alguns degraus laterais, seguindo o seu adestrador, e atravessou a arquibancada, justamente, exatamente, no degrau seguinte ao nosso, que estava ha ateh alguns minutos interditado. E eh ai que introduzo a razao dessas linhas que preencho: o meu encontro com a foca!. Ela passou exatamente ao meu lado, se arrastanto, carregando com esforco e certa graca o seu imenso corpo, em busca de mais sardinhas. E eu a olhei, enquanto ela distraidamente se movia, e meus olhos encheram de agua, e foi inevitavel nao comecar a chorar. Um choro silencioso, mas impossivel de ser contido, que durou os quarenta de minutos do belo espetaculo. No comeco, atribui o meu choro a comocao, ou ao fato de ter-me lembrado da musica do Vinicius de Moraes (que menciona um show de focas onde a foca brasileira desmaia por ser pobre e nao poder comprar sardinhas!!). Mas depois, jah nao sabia se chorava por causa da foca, ou pelo constrangimento de ser o unico ser humano a chorar, dentre tantos outros aparentemente alheios ao que acontecia comigo. Ao sair do show, analisando o que tinha acabado de me acontecer, cheguei a brilhante conclusao que em minha vida passada eu fui uma foca! Soh nao consegui ainda chegar a uma conclusao sobre se o fato de ter sido foca em uma vida passada e Lisavieta nessa vida configura uma evolucao ou nao.
Mas esse evento ainda nao desabitou a minha mente, e vez ou outra me lembro da foquinha e de mim, de nossa troca de olhares que definitivamente afetou a minha vida. Lembrar desse episodio eh, por muitas vezes, o ponto mais alto de meu dia, aquele em que sinto um vazio que me preenche de uma felicidade indescritivel!!
Mas ha dias em que um outro evento se torna maior e mais belo, a ponto de desbancar o evento da foquinha, e eh aqui que o introduzo. Estou trabalhando com um casal com sindrome de Down. Eles sao uns fofos, e eu jah disse a minha coordenadora que a vontade que eu tenho eh de adota-los. Ela sempre ri quando eu menciono isso, achando que se trata de uma brincadeira. Dentre todos os desafios que tenho vivido em meu trabalho, certamente jogar playstation e compartilhar de ensinamentos milenares sobre Tartarugas Ninja, Pokemon ou Homem Aranha tem sido dos mais interessantes. Interessante tambem, eh velos dando o beijo de despedida todos os dias de manha, antes de a esposa sair para o trabalho e o marido ficar em casa, para resolver questoes bancarias e outras acoes cotidianas com o meu auxilio. Mas, voltando ao beijo... ve-los dando o beijo de despedida tem sido por muitas vezes o ponto alto do meus dias, desbancando a minha nao esquecida foquinha!
E quando eu achava que nao havia mais nada para acontecer, ontem houve outro fato que desbancou os dois jah previamente citados. Eu estava com a esposa, e ia ajuda-la a passar o creme facial que ela coloca diariamente para proteger a sua pele do frio, quando ela me falou que jah se sentia a vontade para passar o creme sozinha, desde que eu ficasse ao seu lado, para auxilia-la com alguma eventual indicacao. E ve-la passando sozinha o creme, se olhando maravilhada no espelho, com mais essa responsabilidade que ela podia assumir, me deu o mesmo aperto de vazio feliz no meu peito. Aquela expressao de vitoria dela, de quem acaba de achar petroleo no meio do quintal, me fez ter uma vontade quase incontrolavel de chorar de novo.
Mas dessa vez, neguei-me terminantemete a cogitar ter sido um creme facial em uma outra vida, e consegui segurar meu choro!

26 de mai. de 2007

Nada de Silvio Santos


Ah, domingo... o dia nacional da preguica, do ocio, do nada...o dia aqui comecou indeciso - assim como eu. Como de costume, fui lavar roupa, aspirar carpete (soh pra relaxar!!), ler, e depois assistir um filminho ateh ter coragem de me levantar e fazer algo para comer. Umas 4 da tarde, jah cansada de nao fazer nada (!), decidi sair e andar pela cidade, para ver o q o domingo me proporcionaria. Sai andando (atravessei minha amada ponte), e fui ao centro - em sua maioria fechado. Tive a surpresa de encontrar com alguns amigos e ter momentos de boas risadas. Na volta - tb pela ponte - eu vejo um casal se beijando, e a mulher com uma das pernas flexionadas, com o pezinho pra cima (aquela classica boba deliciosa cena de quem estah apaixonada!). Estava meio escuro, e soh qdo me aproximei um pouco mais, percebi q era um casal de idosos, ambos de cabelo branquinho. Acho q essa foi a primeira vez q eu realmente lamentei nao ter ainda uma maquina, adoraria ter registrado esse momento!!! Na minha volta para casa, ainda na ponte, peguei uma chuva, q resolveu completar meu domingo. De inicio, pensei em correr e me proteger, depois me dei conta de q eu AINDA nao tinha tomado um delicioso banho de chuva por aqui. Simplesmente abri os bracos, e fiquei lah, lavando o meu domingo e o meu coracaozinho apertado e feliz!!! Ahhhhhhhh, os domingos... aqueles q o perdem assistindo Silvio Santos talvez nao tenham a oportunidade de apreciar uma sensacao q eh otima no ser humano: ser feliz!!!

8 de fev. de 2007

Mr Clapton got me on my knees

Estava essa paraibana errante ontem na internet, às 5 da tarde, quando me veio a coragem de saciar a vontade quase irresistível de ir ao show do Eric Clapton - era o segundo dos dois que ele faria aqui.
Então pensei: o show é daqui a três horas, não tenho ainda ingresso, eu vou sozinha, não sei chegar ao local do show e ainda tenho que ir em casa me arrumar para ir.
Mas... como o nordestino é antes de tudo um forte, entrei na internet, comprei o ingresso - na verdade, anotei à caneta o código da compra, porque aqui não tem impressora - , corri pra casa pra tomar um banho, e, alguns mapas e telefonemas para a estação de transportes públicos depois, peguei um ônibus, depois um trem, e cheguei ao Brisbane Entertainment Center.
Pegar o ingresso no guichê foi menos burocrático do que eu esperava. A minha emoção era tanta, que tomei algumas cervejas - pelo menos, as que meu porta-moedas permitiu!!
Entrei e me sentei no lugar - cadeira marcada!!! Eu sentei bem perto, na verdade!!!! Acho que a uns 30 metros do palco, de forma que me deliciei não apenas com as músicas - esse banquete de notas se transformando em blues a cada instante - mas também com a performance não apenas do Eric (gostaram da intimidade?) mas de toda a sua banda.
Eu fiquei maravilhada, em transe, em êxtase, emocionada... e tudo o que eu mais desejava era que vocês pudessem ir até o sétimo e meio andar e entrar em minha cabeça - como no filme Quero ser John Malkovitch -, para ver através dos meus olhos toda aquela explosão de cores e sons em que eu estava inserida. Eu não parava de imaginar o que é que diabos eu tinha feito para merecer estar ali. Foi muito bom, muito bom mesmo!!
Pena que o pessoal era comportado(!) e eu não pude ficar em pé e pular quando ele cantou Layla, para poder gritar “Mr Clapton, you got me on my knees!!!”, seguido de um sonoro PUTA QUE PARIU! Mas, infelizmente isso não foi possível e ficou apenas confortável imaginar em meus sonhos!
Na volta, peguei o trem - lotado de gente feliz!!! -, depois andei mais uns 20 minutos, peguei o ferry, e cheguei em casa - feliz!! (repito, caso isso ainda não tenha ficado claro!)

Cheguei a conclusão de que não são três, mas sim quatro - pelo menos!! - as coisas que a gente tem que fazer na vida: escrever um livro, plantar uma árvore, ter um filho e ir a um show do Eric Clapton!!
Aliás... são 5!! A primeira é ter a quem amar. Pois sem os meus amigos, para eu compartilhar as minhas aventuras, nada na vida valeria a pena!!!

31 de dez. de 2006

E Que Venha 2007...











E que no meio de tantos
rumores
sabores
dissabores
amores
dores
cores
flores

Possamos ainda
sorrir
existir
expandir
persistir

Sem com isso esquecer de
amar
perdoar
acreditar
lembrar
deixar
continuar
beijar
levantar

E buscando sempre
ser mais do que ter
fazer
florescer
renascer
esquecer
permanecer
crer

14 de nov. de 2006

Minha Ponte Aérea para Shangrilá

Há frases, músicas, aromas, lugares que, em determinados momentos, significaram muito pra mim, e aos quais sempre retorno para resgatar um sentimento ou alguém (e esse alguém, geralmente, é quem eu fui, ao me ver transformada durante aquela determinada troca de sensações).

Alguns desses meus portos seguros são os livros.

Lembro-me, ainda pequena, quando tive catapora,e fiquei alguns dias de “castigo” para me recuperar, tendo como companhia Zezinho, O Dono da Porquinha Preta. A partir de então, peguei o vício da leitura, e tive uma infância recheada de aventuras, desde segredos em ilhas e órfãs heroínas, até o mundo mágico de Narizinho e Emília. As aventuras de Hercule Poirot e Miss Marple povoaram a minha adolescência de mistérios e crimes a resolver, a ponto de eu ter passado alguns anos tentando descobrir os pretensos macabros segredos de toda a minha vizinhança.

Alguns anos depois, li outros livros que afetariam, definitivamente, a minha vida, dentre eles, o indescritível Crime e Castigo. Tão apaixonada fiquei por aqueles universos novos, todos me aguardando para serem descobertos, que nunca mais quis abandoná-los, e, até hoje, não fico mais de dois meses sem embarcar em uma nova aventura, onde os personagens têm seus perfis descritos, mas seus sorrisos, suas silhuetas, sua expressões... só o leitor pode saber, definir, criar. Ler é como brincar um pouquinho de Deus, e poder, a nosso bel prazer, inventar e reinventar as situações, viver tantas situações e tantos amores em uma só existência. A cada vez que releio algum livro de Jorge Amado, o sol em determinado capítulo está mais quente. A cada releitura de algum romance do Milan Kundera, a paixão entre alguns personagens torna-se mais tórrida. A cada festa descrita por Scott Fitzgerald relida, a embriaguez é maior.

Dentre os tantos (tantos!) trechos de livros a que me remeto sempre, estão aqui alguns deliciosos, sofridos, reflexivos, vividos, divididos!!!


Isabel Allende: A CASA DOS ESPÍRITOS:
"Barrabás chegou à família por via marítima..."

Milan Kundera: A IMORTALIDADE:
"O sorriso e o gesto eram cheios de sedução, ao passo que o rosto e o corpo já nada de sedutor tinham. Era a sedução de um gesto afogado na não-sedução de um corpo. Mas a mulher, embora devesse saber que deixara de ser bela, esquecera-o neste instante".

Gabriel Garcia Marquez: O AMOR NOS TEMPOS DO CÓLERA:
“Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados”.


Robert Pirsig: ZEN E A ARTE DE MANUTENÇÃO DE MOTOCICLETAS:
“A motocicleta funciona inteiramente de acordo com leis racionais, e o estudo da arte da manutenção de motocicletas é, no fundo, um estudo em miniatura da arte da própria racionalidade.”

28 de out. de 2006

Em Qualquer Lugar

Por esses dias, andei angustiada, sem saber o que comprar de presente para uma amiga minha, muito querida. Às vezes achamos que é mais difícil presentear aqueles que mal conhecemos. Hum... tenho que discordar. Explico-me: quando mal conhecemos alguém, realmente fica difícil presentear por desconhecermos totalmente seus gostos e preferências. Mas, quando conhecemos tanto e tão intimamente alguém, a expectativa da sintonia, da novidade, do inesperado, dificultam ainda mais a escolha, tornando o exercício angustiante.

E foi nesse contexto que me deparei com o CD da Rita Lee, Aqui, Ali, Em Qualquer Lugar. A Rita Lee, para mim, é como o Paul McCartney: quando a gente acha que eles já inventaram de tudo, eles vêm e mostram quão enganados estávamos. As músicas do McCartney e do Lennon, imortalizadas pelos Beatles, já sofreram versões que as descaracterizaram e as caricaturaram. E, ao perceber que o CD da Rita não apenas fazia a releitura de alguns desses clássicos, como também trazia algumas versões livres para o português, a minha aflição, imaginando que a ela beirava esse patamar, aumentava.

E quão prazeroso foi, para mim, perceber que eu estava completamente enganada! A Rita interpreta com delicadeza belas músicas como All My Loving, A Hard Day´s Night e Here, There and Everywhere. E quanto às versões livres para o português que ela faz de algumas dessas músicas?, algumas eu achei interessantes e ousadas, como os versos em que ela brinca com um “I love you pra xuxú/ Se você não está perto eu fico jururu/ Tudo azul mas sem você eu fico blue” ou outro “você vai se ferrari”. Outras, não fizeram tanto assim o meu estilo, ficando eu agradecida por existirem as versões originais em inglês.

Mas não será a amizade como o CD da Rita, enfim?, ela pode ser sempre a mesma, sob várias versões e variações?, uma mesma base, sendo sempre reconstruída e reinventada, sem, com isso, perder-se a versão original?.

O CD da Rita é para ser ouvido no carro, com o trânsito engarrafado ao meio dia; em casa, em um domingo chuvoso, comendo mingau de aveia em cumbuca de porcelana azul, ou em qualquer lugar. É um CD reconfortante sobre inovar, tentar, ousar – com a cautela de não beirar o ridículo.

Dedicá-lo a si mesmo, a um amor ou a um amigo, é um convite à reinvenção, por tempo indeterminado, de um sentimento eterno – eterno como as músicas dos Beatles e a irreverência da Rita. É compartilhar a certeza de que as mudanças existem e continuarão sempre existindo, mas as nossas versões originais estarão sempre ali, guardadinhas, estejamos nós aqui, ali, ou em qualquer lugar.

Não tive mais dúvidas sobre o que comprar.

1 de set. de 2006

Quando o Invisível Nos Salta Aos Olhos

O novo filme do M. Night Shyamalan, A DAMA NA ÁGUA (versão em português para o título original Lady in the Water), lembra, de várias formas, o igualmente maravilhoso SINAIS.

Para os fãs do diretor, que apostam sempre em filmes surpreendentes como O SEXTO SENTIDO, tanto SINAIS quanto A DAMA NA ÁGUA podem parecer frustrantes. Provavelmente, porque as minúcias desses filmes, sua real beleza e encanto, acontecem a partir do cotidiano transformado em situações fantásticas e inverossímeis, que constituem, na verdade, pano de fundo para uma estória maior.

Em A DAMA DA ÁGUA, o zelador de condomínios Cleveland Heep, vê-se de frente com o seu passado, supostamente engavetado, a partir de uma sucessão de fatos fantásticos – assim como acontece com o personagem Graham Hess, em SINAIS.

Ao conhecer de forma inusitada a jovem e frágil Story (cujo nome já nos revela um pouco de sua confusa identidade, tendo em vista ela ser uma personagem fantástica de uma antiga estória de ninar – bedtime story), Cleveland se vê diante não apenas da crise de Story, mas de sua própria. Não é apenas Story que desconhece sua identidade, seu destino e sua missão, mas todos nós – apesar de, muitas vezes, fingirmos que não. Talvez por isso não seja tão estapafúrdio vermos o zelador e os demais moradores do condomínio acreditando tão facilmente em sua condição, porque nós mesmos somos levados a acreditar.

E aí se mostra a real beleza do filme, não em suas criaturas fantásticas e trilha sonora envolvente, mas na capacidade do ser humano de ACREDITAR, de BUSCAR. Seríamos nós capazes de ser como somos e fazer grande parte do que fazemos se alguém não nos dissesse que somos capazes?, qual a tênue linha que divide o destino da “mão na massa”?, quantas vezes, ao ouvirmos alguém nos dizer algo, realmente escutamos o que aquela pessoa diz em vez de o que queremos acreditar que ela esteja dizendo?, se pudéssemos previamente conhecer o nosso destino, optaríamos por fazê-lo, ou preferiríamos ignorar esse conhecimento e construí-lo às escuras?.

Em A DAMA DA ÁGUA, Shyamalan nos expõe de forma crua o quanto tentamos tornar verdade aquilo que queremos que seja; o quanto somos conhecidos, muitas vezes, apenas a partir das identidades que aparentamos ou tentamos aparentar; e o quão prepotentes somos ao julgarmos conhecer os outros a partir de impressões.

E, invariavelmente, nos surpreendemos com o quão pequeno somos em nossas percepções e julgamentos, e o quão enorme em nossos potenciais – muitas vezes desconhecidos.

31 de jul. de 2006

Eu, Zen, e Aqueles Dias Em Que a Gente Se Sente Como Quem Partiu Ou Morreu...



Ir ao trabalho é uma atividade tão corriqueira quanto almoçar ou escovar os cabelos. Executamos essas atividades, diariamente, até o ponto em que se tornam mecânicas e não percebemos, muitas vezes, as nuances desses momentos.

Foi assim com aquela manhã em que cheguei ao meu trabalho. Manhã chuvosa, cinza, fria, sem vontade de ser manhã. Desliguei o carro, ainda ao som do Chico Buarque e sua Roda Viva, e olhei para frente, para o vidro do carro.

Dentre tantas gotas de chuva, uma gota, aquela gota, caiu naquele momento, parecendo uma lágrima longa e cheia, dançando pelo vidro. Nenhuma das outras gotas, esmagadas, desmanchadas por todo o vidro tinham aquela tristeza. E, naquele momento, não existia mais eu, e não existia mais a gota. Eu me converti em gota, em objeto em queda livre amortecida; e a gota, até então exterior ao meu ser, subitamente se convertera a algo interior a mim. Mente, corpo e água se fizeram completamente transparentes, perdendo, momentaneamente, sua opacidade existencial. Éramos um só, o reflexo do universo em conjunção naquele momento, concorrendo simultânea e paralelamente para seu harmônico e contínuo andamento. Esquecemos. Deixamo-nos, iluminar uma pela outra, e esquecemos. Esqueci que não era gota de chuva, a chuva esqueceu que não estava dentro de mim. Fomos um! A exteriorização do interior, a interiorização do exterior. A junção absolutamente indiferenciada e indivisível: uma pura consciência sem sujeito nem objeto.

De repente, ela findou, terminou de chorar, fez seu trajeto e morreu. Voltei a ser eu, ela já não era mais gota. Ao piscar os olhos, percebi que ainda estava no carro, o rádio ainda ligado, Chico ainda cantando.

Fechei tudo, desci do carro e fui trabalhar, ainda com uns versos do T.S.Elliot brincando em minha mente:

Música tão profundamente escutada que
Já não a escutamos, posto que nós mesmos
somos música enquanto dura...

17 de jul. de 2006

Aquela Suave Melancolia


Todos temos que viver as horas, os dias, e seus momentos - seja o tempo uma realidade, ou uma construção do homem na tentativa de equacionar tudo aquilo que lhe foge ao controle.

Nas relações pessoais, amorosas, profissionais, ou no ambiente onde nos encontramos, às vezes a vida parece ter entrado em uma espécie de engrenagem, e temos a sensação de que, a partir daquele momento, tudo tomou um rumo, e seguirá um confortável e previsível padrão. Mas há também aqueles momentos em que é difícil até mesmo o reconhecimento do rosto que vemos ao espelho. E nesses momentos, geralmente, nos sentimos irremediavelmente sós, órfãos, perdidos, abandonados por todos e pelo destino. Olhamos para os que nos rodeiam, e custamos a perceber alguma identidade entre nós e esses “estranhos”.

O filme Lost in Translation (que, no Brasil, recebeu o título Encontros e Desencontros) retrata alguns desses momentos em que a suposta perfeita engrenagem parece apresentar defeitos. Sou encantada com esse filme por diversas razões: o casal de atores protagonistas, a trilha sonora, a incrível vontade que cresceu dentro de mim de conhecer o Japão, e, principalmente, por falar com tanta delicadeza sobre a solidão. Em meio a uma era em que os avanços tecnológicos facilitam cada vez mais a conexão entre as pessoas, essas são – e se sentem – cada vez mais sós.

Charlotte, recém casada, acompanha o marido ao Japão a trabalho. Vendo-se sem a sua companhia por vários dias, ela se depara com a dificuldade de comunicação, em um país estranho cujo idioma ela não entende. Mas, aos poucos, vamos compreendendo que as barreiras criadas pelas diferenças culturais podem ser contornadas. Estar só não significa, necessariamente, sentir-se só. Sentir-se só, para Charlotte, é estar ao lado de seu marido - com quem ela começa a desconfiar não ter tantas afinidades quanto imaginava, com quem ela não consegue se comunicar, a quem ela tantas vezes não reconhece ao olhar, com quem ela percebe não partilhar das mesmas ambições – do que explorar sozinha uma terra nova, estranha e completamente diferente.

O filme apresenta cenas interessantíssimas – e divertidas - de dificuldade de comunicação entre os protagonistas (Bob e Charlotte), e os japoneses. Mas, mesmo o que se perde na tradução de uma língua para outra ainda é menos do que se perde quando tentamos traduzir o que disfarça a falta de comunicação entre aqueles que falam a mesma língua.

Vale à pena assistir Lost In Translation, e partilhar de sua suave melancolia.

8 de jul. de 2006

Ainda Sobre a Imortalidade - O Mito dos Carajás

Foto de Cláudia Andujar.

O que torna o ser humano imortal é não ter medo de renunciar à imortalidade. É não temer, arriscar, não se acomodar, e ter sempre a humildade de saber que existe muito, mas muito, além daquilo que se conhece.

Essa fome por descobrir, desbravar, conhecer e auto-conhecer é lindamente ilustrada pelo mito dos índios carajás.

O Criador fez os carajás imortais. E viviam como peixes, nos rios, nos lagos. Não conheciam o solo, a Lua, ou as estrelas. Conheciam as águas. E no fundo de cada rio, onde eles estivessem, havia sempre um buraco carregado de luz, de grande intensidade. E era o preceito do Criador: “Vocês não podem entrar nesse buraco, senão perdem a imortalidade”. E eles circundavam aquele buraco, se deixavam iluminar com as suas cores, pela luz que dali surgia, mas respeitavam, apesar de grande a tentação: o que tem lá dentro?.

Até que um dia, um carajá foi, e se meteu buraco adentro, caindo nas praias esplêndidas do Rio Araguaia - q são praias belíssimas -, e ficou maravilhado. Viu o sol, pássaros, paisagens soberbas, flores, borboletas. Para onde dirigia o olhar, ficava cada vez mais boquiaberto, e quando começou a entardecer e o sol a sumir, pensou em voltar aos irmãos, mas então apareceu a Lua, as estrelas, cânticos de pássaros, e ele ficou mais embasbacado ainda. Passou a noite se admirando da grandiosidade do Universo. E quando o sol começou a despontar, ele se lembrou dos irmãos e voltou pelo buraco. Reuniu os irmãos e disse: “Vi uma coisa extraordinária! Vocês não podem imaginar!”, e contou a experiência toda. E todo mundo queria passar pelo buraco. Então os sábios disseram: “Mas o Criador é tão bondoso conosco, nos deu a imortalidade! Vamos consultar o Criador.”. E eles foram: “Pai, deixa-nos passar pelo buraco, é tão extraordinária aquela realidade que o nosso irmão afoito nos contou”, e o Criador, com certa tristeza, disse: “Realmente, é uma realidade esplêndida... Vocês podem ir pra lá, mas tem um preço: perdem a imortalidade!”

Todos se entreolharam, e fixaram o olhar naquele primeiro que foi. E todos decidiram passar pelo buraco, e renunciar à imortalidade.

Então, o Criador disse: “Vocês terão experiências fantásticas, de beleza, de grandiosidade, mas tudo será efêmero. Tudo vai crescer, maturar, decair e morrer. E vocês vão participar disso. É o que querem?”, e todos unanimemente responderam “Sim!”.

E foram, cometeram o ato de suprema coragem para ter a liberdade e viver a experiência, renunciaram à vitalidade perene, renunciaram à imortalidade. E até hoje estão os carajás, naquelas praias lindíssimas, mortais, porém profundamente livres!

18 de jun. de 2006

Não Morrerá Como os Restantes

Starring Nigh - Van Gogh

Como mais órfã que me sinto, sempre que somem de nosso cenário, por serem chamadas para a eternidade, as pessoas que se vão inconsolavelmente cedo -, fico, aqui, imaginando o conceito da palavra Imortalidade.

Milan Kundera, em seu romance “A Imortalidade”, classifica-a como pequena e grande. A pequena imortalidade é a recordação de uma pessoa no espírito daqueles que a conheceram. A segunda, é a recordação de um homem no espírito daqueles que não o conheceram, como acontece com pessoas que deixaram um traço, uma história. Pessoas que afetaram, em maiores proporções, o mundo de que fizeram parte. Ou, parafraseando o Jorge Luís Borges, quando um único homem imortal é todos os outros homens.

A busca pela imortalidade é algo constrangedoramente interessante de ser verificado. Dos remotos tempos até nossos dias, desde romances conturbados, gravidezes contestadas, crimes hediondos, até participações em Big Brothers, o sonho dos quinze minutos de fama que se tornarão eternos é perseguido. Algumas pessoas não se contentam em ser pequenos imortais, pelo simples fato de que não se acreditam assim, não se acham boas o suficiente para serem lembradas ou, o que é ainda mais aterrorizante, para despertarem nos outros comoção por sua ausência. E estão sempre gesticulando neuroticamente, tirando a roupa, falando um pouco mais alto, na tentativa de serem ouvidas, já que não suportam, sozinhas, suas próprias vozes.

Já os grandes imortais, via de regra, não estão com essa preocupação latente. Eles fazem o que fazem, vivem suas idéias e as refletem em seus ofícios por uma razão muito simples: eles não têm opção! Não há como guardar aquilo – que pode ser chamado de dom, persistência, excentricidade ou sonho – dentro deles, sem deixar jorrar! Eles contaminam o mundo – seja o mundo uma grande população ou aquelas dez pessoas que foram afetadas pela sua existência -, e se tornam imortais, ainda na condição de mortais, ainda vivos, ainda perseguindo o que nem sabem se vão encontrar.

O conceito de grande imortalidade é maravilhosamente descrito por Arthur Schopenhauer,em 'Aforismos': “Certo dia, quando recolhia espécimes por baixo de um carvalho, encontrei, entre as outras plantas e ervas daninhas, e do mesmo tamanho que elas, uma planta de cor escura com folhas contraídas e um caule direito e rígido. Quando ia tocar-lhe, disse-me com voz firme: «Deixa-me em paz! Não sou uma erva para o teu herbário, como as outras a quem a natureza deu apenas um ano de vida. A minha vida mede-se em séculos. Sou um pequeno carvalho.» Assim é aquele cuja influência se fará sentir ao longo dos séculos, quando criança, quando jovem, muitas vezes já quando homem, uma criatura viva aparentemente igual às restantes e tão insignificante como elas. Mas basta que lhe dêem tempo e, com o tempo, pessoas que saibam reconhecê-lo. Não morrerá como os restantes.

As pessoas saem de cena, mas fica o que chamamos de Imortalidade, que temo ser, em última instância, a necessidade desesperada de nos apegarmos à memória de tudo que soma, de tudo que pode se desmanchar no ar, para não termos que aceitar viver em um mundo prodominantemente medíocre!

16 de jun. de 2006

O Velho, O Mar e Eu

Ler O VELHO E O MAR, de Ernest Hemingway, fez-me ter vontade de pescar em alto mar, assim como ler ZEN E A ARTE DA MANUTENÇÃO DE MOTOCICLETAS, de Robert Pirsig, me deu vontade de cruzar o estado sobre duas rodas. Por um motivo muito simples: são livros apaixonantes! Livros em que, durante a leitura, esquecemos que somos passivos, e passamos a fazer parte da aventura, do drama.

Mas, voltando a Hemingway... sou fã do escritor – apesar de sua declarada simpatia por Fildel Castro. Desde a sua intrigante biografia, até – e principalmente – seus romances. Desde sempre, pergunto-me “por quem os meus sinos dobrariam”!

Em O VELHO E O MAR, ele trata da vida de um velho pescador, Santiago, que, segundo descrito por ele, "tudo o que nele existia era velho, com exceção dos olhos, que eram da cor do mar, alegres e indomáveis”.

Santiago está, há 84 dias, sem fisgar um peixe, e decide lançar-se ao mar, e não retornar até que mude essa situação. A princípio, somos levados a achar que o velho quer provar aos demais de sua aldeia em Havana que ainda é um bom pescador. Mas é a si mesmo que ele precisa provar algo. Como define H.D.F.Kitto, em seu livro OS GREGOS, “o que impulsiona o herói grego a praticar atos de heroísmo não é o senso de dever que conhecemos – o dever em relação aos outros; ao contrário, é um dever com relação a si mesmo. Ele luta para conseguir aquilo que designamos 'virtude', mas que os gragos chamam aretê, ou seja, superioridade”. É a descrição do motivo de “dever para consigo mesmo”, tradução perfeita da palavra sânscrita dharma. O dharma dos hindus, a “virtude” dos gregos antigos, é o motor propulsor que leva o velho Santiago a alto mar, por três dias, em busca de sua baleia Moby Dick, em busca de enfrentar seus medos, suas angústias, suas fraquezas.

Durante a aventura do velho pescador, Hemingway nos mostra os limites do ser humano diante de seus obstáculos. A busca por derrubar os inimigos passa por vencermos nossos próprio medos, e todo o custo que isso implica. O respeito pelo inimigo, a compreensão de que o peixe – no caso do velho Santiago – constitue-se inimigo pela circunstância, e o consequente respeito que eles demostram um pelo outro, apesar da batalha exaustiva e quase infindável, mostra que, em um duelo, se vencemos nosso oponente, devemos ter em mente que isso se deu por sorte, circunstância ou algum elemento que conferiu superioridade a uma das partes. Mas nunca, em momento algum, deve-se deixar de respeitar o seu adversário. Como disse Jean Yves Leloup, “amar o inimigo é desposar o outro em sua radical outridade, é descobrir a luz sob sua forma de sombra inseparável".

Tentar descrever O VELHO E O MAR é como tentar descrever um dia de pesca, ou uma jornada de motocicleta... cheio de minúcias, possível apenas aos que mergulham nesse desafio e suas incríveis descobertas!


2 de jun. de 2006

Fundo de Quintal


Pensando no que eu quero para a minha vida, cheguei a uma conclusão: para o meu futuro, eu quero um quintal.

Quero grama, quero sol, quero árvore e céu. Quero espaço, quero me sentir livre. Não quero passar o resto de minha vida a ver a vida através de uma janela com grades. Quero abrir a minha porta, e poder sair lentamente em direção às minhas tardes de agosto lá fora. Quero não precisar me limitar a alguns metros quadrados de concreto e tinta óleo. Quero banho de chuva em fins de tarde.

É cada vez menor o número de quintais. Deveria haver um estudo sobre isso, sobre a contínua tendência de nos fecharmos em alguns tristes metros quadrados, em nossa necessidade, cada vez maior, de justapor, verticalmente, todos os nossos sonhos, obrigações, frustrações e anseios.

Quando decidimos abrir as portas para o quintal – e, antes disso, quando nos permitimos ter um quintal -, sentimo-nos como Robinson Crusoé, ao encontrar na areia as pegadas do índio Sexta-Feira. É como encontrar a saída da jaula na qual nem percebíamos que estávamos encerrados. E então, encontramos flores, chuva, céu, pedras... mas, acima de tudo, liberdade, oportunidade, diversidade! Encontramos espaço para atividades que não se resumam às ensimesmadas, a que estamos acostumados.

A cada dia, a mídia, a tecnologia, a violência e o conseqüente ritmo frenético de nossas vidas nos convencem de que não precisamos de um quintal, de que nem mais queremos um quintal.

Às vezes, esqueço do meu. Esqueço de regar as plantas, de andar descalça pela grama molhada, e de ofuscar meus olhos ao olhar para o domingo ensolarado... Que bom que, em nossas vidas, existem os domingos ensolarados!

16 de mai. de 2006

O Palhaço Que Sabia Demais


O palhaço... Esse ser entre o engraçado e o ridículo, perdido entre tanta maquiagem e pano, o palhaço.

As primeiras lembranças que tenho de palhaços são nas festas infantis. Geralmente, o próprio aniversariante está tão apavorado, que não entende porque seus pais o submeteram a tal tortura. Alguém conhece alguma criança de colo, que não chore, quando próxima a um palhaço - em sua festinha de aniversário de dois anos - que insiste em rir e pular?, eu não conheço. Particularmente, não me lembro dessa fase de minha vida, mas tenho quase certeza de que também chorei, todas as vezes que um palhaço esteve a menos de dois metros de mim – e, por isso, a minha tolerância limita-se aos palhaços de circo, sempre mantidos a uma segura distância. Mas, esses que nos assustam, que nos fazem chorar, não são os verdadeiros palhaços.

O falso palhaço acredita-se engraçado sem realmente ser, ri de suas insossas piadas antes de todos os outros, e não vê a hora de tirar a fantasia. Ele não é palhaço, ele está palhaço – ou pelo menos tenta. O falso palhaço sente um enorme alívio ao se perceber não-palhaço, ao fim do espetáculo. Ele não traz alegria, não diverte, não emociona, não nos proporciona a possibilidade de sonhar e navegar, por breves momentos, por água amenas e inocentes. Por um simples motivo: ele não acredita. No fundo, ele se acha bobo, sente vergonha, e tem uma inveja engasgada e triste de todos os que não a têm. Ele é o modelo que nos inspira a chamar aquele cunhado desagradável ou o vizinho briguento de “palhaço”.

Mas, voltemos aos verdadeiros palhaços. Os que realmente são palhaços, enquanto estão no palco, sentem-se palhaços, sorriem, correm, dançam, caem e cantam como palhaços. As gargalhadas são seu combustível, e não o resultado buscado ao final de cada espetáculo. O verdadeiro palhaço imagina-se palhaço, acredita-se palhaço. Por isso, ele chora ao fim do espetáculo. Pois ele morre, sempre morre! Ponho-me a imaginar o exato momento em que, ao fim do espetáculo, o palhaço tira a sua maquiagem, e, vendo de novo o seu rosto no espelho, chora. Acabou a fantasia, acabou a risadagem, ele não é mais o centro daquela alegria, daquele universo paralelo de sorrisos e doces, elefantes e trapezistas, cheirando a lona e madeira. Agora é voltar aos problemas e à realidade, às sucessivas provações e fracassos –sem direito a pipoca.

É preciso muita coragem para ser palhaço, para viver sempre no limiar do ridículo, sem realmente sê-lo. O verdadeiro palhaço, ao constatar que deixou de sê-lo realmente, após água, algodão e sabonete, sai, caminhando, com as mãos nos bolsos, e com aquela sensação vazia.

Por um momento – apenas por um breve momento – ele imaginou que, dessa vez, não precisaria tirar aquela maquiagem... Ao contemplar, com ar decepcionado, o seu rosto, mal consegue ouvir, em sua memória, aquelas risadas gostosas das crianças, entre pipoca e algodão doce, a cada tropeço seu no palco. E ele sorri um sorriso triste, imaginando como foi capaz de um outro mais expressivo e sincero há tão poucos instantes.

6 de mai. de 2006

O Prosperar Contínuo do Desejo



Engana-se quem ainda não vê relação entre a Economia e a Felicidade. Hoje, muito se fala sobre Felicidade Interna Bruta de um país (FIB). Assim como o PIB, o FIB é um índice, mas diferentemente daquele, esse mede o grau de satisfação de uma população com sua qualidade de vida. Não é de hoje que se relaciona a felicidade com as condições econômicas de um determinado país. Adam Smith, o autor de A Riqueza das Nações, já discutia a felicidade em Teoria do Sentimento Moral.
O conceito de Felicidade Interna Bruta surgiu na década de 1970, no Butão, um pequenino e distante reino isolado no Himalaia, de cultura tradicional budista, para rejeitar a idéia de que o desenvolvimento deveria ser uma cópia exata do Primeiro Mundo. Lá, a felicidade do povo é um dos objetivos do governo, e esta busca se baseia em quatro pilares: incentivo à cultura, preservação do meio ambiente, independência econômica externa e bom governo. Foram implantados sistemas de saúde e educação universais que aumentaram significativamente a qualidade de vida da população. Satisfeitas essas primeiras necessidades, outros fatores passam a afetar o índice de Felicidade Interna Bruta: as relações sociais, o tempo que se consegue passar com família e amigos, saúde, e o grau de satisfação no trabalho – ou o desemprego.
Começamos a falar, então, sobre o que o economista alemão Johannes Hirata, define como bem-estar subjetivo. Ora! Subjetivamente, quanto mais pessoas ricas em uma sociedade, mais os pobres vão se sentir pobres. Subjetivamente, na medida em que um indivíduo alcança os objetivos que supostamente o fariam feliz, ele criará outros para justificar a – ainda – busca pela felicidade. Isso explica porque um país como o Butão, que rejeitava o modelo de consumo, hoje, com sua população educada e saudável, quer mais é consumir. Quando um país é muito pobre, quando a pessoa passa fome, ela não está feliz. Um aumento de bem-estar material traz felicidade, mas só até certo ponto, onde ela pára de crescer. Esse fenômeno reforça uma idéia que tem raízes na escola utilitarista do século XIX, segundo a qual a utilidade marginal de qualquer coisa é decrescente. A segunda barra de chocolate dá menos prazer que a primeira e assim por diante. É um paradigma usado como argumento para a importância da distribuição de renda e de o Estado destinar mais dinheiro às políticas que beneficiem os mais pobres. A correlação entre renda e felicidade nos países ricos mostra que, ao longo do tempo, eles não ficam mais felizes quando crescem. Isso acontece, por exemplo, com os Estados Unidos, onde não há aumento do bem-estar subjetivo faz muito tempo. Eles começaram a medir isso em 1946. A renda per capita lá deve ter aumentado no período entre 200 e 300%, mas não houve aumento significativo da felicidade. Reflexos de uma sociedade capitalista, sempre insaciável: o dinheiro dá muita felicidade para quem tem pouco, mas ajuda pouco quem já tem muito.
Fico, ainda, a me questionar... o que é felicidade?, qual o patamar a que deveremos chegar para nos sentirmos plenamente felizes? Sinto a minha felicidade em jogo, com todas essas questões...
Em recente entrevista, o psicanalista Flávio Gikovate defendeu a teoria de que o ser humano não está preparado para a felicidade, e vive “sabotando” as possibilidades de alcanlçá-la. Por exemplo, o indivíduo define como seu sonho, seu protótipo de felicidade e realização, adquirir um determinado carro. A probabilidade de ele procurar – mesmo que inconscientemente - que haja qualquer eventualidade que apague do objeto de desejo a aura que o sonho embute, e o transforme em algo abaixo do que seria o ideal, para que ele possa usá-lo tranqüilamente e não precise conviver com a insuportável sensação que já atingiu plenamente o que o faria feliz – tendo em vista não ser isso verdade mesmo – é muito grande. Alarmantemente, o mesmo raciocínio pode ser usado em nossas relações interpessoais, principalmente as de fundo romântico.
Só posso concluir concordando com o filósofo Thomas Hobbes, quando disse que a felicidade é o prosperar contínuo do desejo. Essa mesma felicidade, que “brilha tranqüila, depois de leve oscila, e cai como uma lágrima de amor”.
Aguardo outros estudos sobre felicidade. Quem sabe, no próximo, a felicidade é associada a baixas na taxa de colesterol!

3 de mai. de 2006

Shhhhhhhhhhhh!!!

Há coisas que a gente não percebe por serem muito pequenas para serem vistas; outras, por serem imensas!
Eu estava em um shopping center há alguns dias, sentada, tomando café e lendo, quando despertei para o universo ao meu redor. Olhei em volta, pessoas passando, algumas apressadas, algumas sorrindo, algumas absortas em seus pensamentos. A vendedora forçando um sorriso para a cliente indecisa e aborrecida. O adolescente comendo pizza com a namorada. As colegas de trabalho tomando sorvete no intervalo entre os turnos. O casal apressado para não perder a sessão de cinema.
Tentei imaginar que aquele prédio era uma imensa televisão, e que o controle remoto estava em minhas mãos. De repente, eu resolvo baixar o volume, até que viramos filme mudo. Nada de música ambiente, nada de argumentos, conversas ou pedidos. Começo a ver todas as pessoas sem o som, sem aquela nuvem de freqüências sonoras que nos molha lá de cima. Seus movimentos - de alguns, desengonçados; de outros, em vigilância. Suas expressões faciais. A criança que quer impor à mãe a sua vontade negada – talvez um sorvete, talvez um brinquedo: ela não apenas berra, mas também se movimenta irritantemente, como se o som que emitisse não fizesse mais efeito. A garota, tímida, na loja de CD´s, sentindo-se completamente alheia e isolada do mundo: não está mais, o silêncio me fez percebê-la. As amigas que fingem conversar, enquanto, na realidade, estão avaliando a aparência uma da outra: seus cabelos, seus sapatos, suas maquiagens. O grupo de adolescentes, que insistem em movimentos caricatos para provarem aos outros – e a si mesmos – que fazem parte de uma determinada tribo.
É interessante observar as pessoas e as situações sem o som. Qualquer dia desses, farei esse mesmo exercício em uma feira livre!
Partindo, então, desse prazer de, às vezes, nos abstrairmos de todo e qualquer impulso sonoro, resolvi listar alguns momentos em que o silêncio nos é perceptível, e extremamente reconfortante:
- após o ensaio de saxofone do vizinho;
- ao desligar a TV, minutos depois do início do horário da propaganda política eleitoral;
- conseguir ouvir o virar da página do livro que estamos lendo;
- o cessar da chuva da madrugada;
- o sorriso cúmplice e apaixonado, que dispensa palavras;
- o exato momento em que o filme se encerra, e as luzes do cinema se acendem;
- o consentimento de um abraço, a partir de um olhar;
- perceber o momento em que a pilha do relógio da sala acabou.

A magia do silêncio está em termos consciência de que ele é extremamente frágil, uma bolha de sabão a ser estourada a qualquer momento. E então, mergulharmos, novamente, em nosso universo de músicas, inflamados debates e todos os demais instrumentos da orquestra que toca a sinfonia de nossa selva de pedra.