26 de abr. de 2006

A Matemática, O Mal de Amor e Harry e Sally


Quando estou arrasada de amor, desiludida ou achando que o universo conspira contra mim nas questões açucaradas (e deliciosas) do coração, remeto-me a um filme do tempo em que a escova progressiva ou a China ainda não estavam na moda: Harry e Sally – Feitos um para o outro. Quem não se lembra da cena em que a Meg Ryan simula um orgasmo feminino na frente do Billy Cristal, num restaurante cheio de gente?
Harry e Sally se conhecem, e, a princípio, não conseguem ver nada de saboroso em uma convivência entre duas pessoas tão diferentes. Alguns anos depois, voltam a se encontrar, e, mais algum tempo depois, passam a desenvolver uma íntima amizade, passam a perceber os prazeres que as diferenças agregam à convivência, em detrimento das naturais incompatibilidades. Mas um espectro marca toda a sua relação: poderão um homem e uma mulher ser amigos sem o desejo de dormirem juntos? Acabará o sexo com uma boa amizade? E será a amizade o caminho mais óbvio para um amor inevitável? Qual a fronteira que separa o amor fraternal, a admiração e o companheirismo da paixão?
Gosto de imaginar as pessoas como números. Sabemos que eles existem em infinidade. Cada número é único e definido, mas é da combinação dos números que saem os mais diversos e imprevisíveis resultados – às vezes indeterminados! Conheço algumas pessoas que me lembram os números complexos... e aqui sem trocadilhos!
Mas, devaneios aparte, muitos defendem que a paixão entre duas pessoas pode ser simplificada a uma explosão (temporária) de hormônios, e, naturalmente, com o passar do tempo, ela diminui – até porque, senão, não conseguiríamos fazer mais nada! A paixão corrói, queima, transforma, machuca, acelera o ritmo cardíaco e nos torna mais ansiosos... mas é uma delícia! Uma paixão nos reanima, nos torna mais vivos, faz bem pra pele, faz-nos atravessar um mês de agosto nos sentindo ensolarados, dá forma ao que não tem forma! Nunca me arrependi de nenhuma paixão que vivi, no máximo lamentei a parte de mim que ficou com cada uma delas...
Existem os que buscam o amor idealizado, e deixam de perceber o que os rodeia; existem os que acham q nunca o vão encontrar, e decidem se conformar com a primeira oportunidade que surge; existem os inseguros, que não se acham capazes de achar satisfação em um único relacionamento, e estão sempre de passagem... mas existe, acima de tudo, a busca pela pessoa que será a perfeita união entre o companheirismo e a paixão.
Mas, ainda prefiro acreditar que todos nascemos para aqueles momentos em que, no meio de tantas pessoas, em uma cruzada de olhares, sabemos que nossas vidas nunca mais serão as mesmas!

24 de abr. de 2006

FOR SALE

Pensei em entrar em liquidação. Colocar meu afeto a venda, na pechincha, e fechar a loja.
Tudo começou quando me decepcionei, profundamente. Pior do que decepção de amor romântico é decepção com amigo. Amigo é o dedão da mão, amigo é a cereja do doce, amigo é a gargalhada mais alta de nossa risada, amigo é a sétima cor do arco-íris. E me orgulho de ter alguns.
Um deles, em especial, que não vejo há quase dois anos, em uma conversa recente comigo, mostrou-se um ser humano tão mesquinho, umbiguista, prepotente, pernóstico, cruel... comigo! Comigo, que ofereci meu ombro para as suas dores de abandono. Comigo, que tomei porres para dividir com ele suas decepções. Comigo, que ri de suas piadas sem graça, que respondi bilhetes escritos em guardanapos em noites divertidas. Comigo, que fui com ele a uma linda praia celebrar a vida, depois de dias exaustivos de trabalho. Comigo, que chorei meu coração partido em seus ouvidos. Comigo, que pedi opiniões sobre as mais diversas inseguranças femininas... COMIGO!
E agora, depois de dois anos sem nos vermos – por motivos geográficos e afazeres cotidianos -, percebo que, durante esse período, enquanto eu imaginava “Como estará o meu amigo?”, “O que estará ele fazendo agora?”, “Será ele feliz?”, “Quando riremos juntos novamente?”, “Quando poderei dividir com ele essas questões de minha vida que ele fingia tão bem não se aborrecer em ouvir?”, ele apenas pensava “Ela é apaixonada por mim. Me amou, e me ama até hoje, e chora por mim diariamente. Coitada dela!”. Convenientemente, ele só chegou a essa – “brilhante!” - conclusão de dois anos pra cá, quando casou.
Se ele não fosse casado, e se eu não tivesse sido testemunha – e torcedora - de todo o processo amoroso dele, eu não me incomodaria com tal demência. Se nossa convivência não tivesse sido tão transparente e sinalizada, a cada minuto, com manifestações fraternas e de bem-querer, eu não me incomodaria com tal demência. É perfeitamente natural amigos se apaixonarem, mas não em nossa situação! Não confundindo sentimentos nobres em prol de uma auto-promoção ridícula!
Por isso, resolvi que entraria em liquidação. Meu afeto teria desconto agora. Últimas peças, por preço abaixo do tabelado. “Aproveite, que é por tempo limitado!”. Comecei a imaginar que todas as pessoas a quem dedico carinho e afeto fraternal estariam, agora, levianamente, da mesma forma, se vangloriando de um sentimento resultante de um surto psicótico privé.
Senti-me só, desgraçadamente só! Só, por imaginar que alguém tão próximo a mim possa não me conhecer a esse ponto... e o que é pior... só, por me surpreender tão ignorante em relação às pessoas que julgo amigas. Tão decepcionada comigo mesma! Repito... não que seja impossível alguém se apaixonar por um amigo, mas os verdadeiros amigos se conhecem. Se ele fosse realmente meu amigo, saberia que o brilho dos meus olhos é diferente quando estou apaixonada. Que não consigo encostar meus lábios quando estou apaixonada, que estou sempre com a sensação de quem precisa de um sal de frutas quando estou apaixonada, que o dia mais nublado é um jardim com borboletas quando estou apaixonada. Se ele realmente fosse meu amigo, saberia que essa atitude egocêntrica me magoou, sem precedentes.
Terminei essa conversa com esse (já não mais!) meu amigo, pensando em me colocar a liquidação, em vender o afeto que eventualmente eu ainda estivesse disposta a dividir.
Foi então, que me ocorreu um pensamento libertador, e depois desse pensamento, sorri, e fui dormir sem precisar nunca mais me preocupar com esse assunto: esse é um problema dele! É uma necessidade doentia dele imaginar que um amor fraternal precise ser distorcido dessa forma, para ele se sentir seguro. O problema é dele, e não meu!
Não estou mais em liquidação. O bazar fechou. Meu afeto pode não valer muito, mas saiu da promoção. E, amigos queridos - e poucos –, que eu eventualmente tenha... amo-os, verdadeiramente.

22 de abr. de 2006

SE

Conheci o Rudyard Kipling lá pelos meus catorze anos. Eu era uma adolescente atormentada por minhas dúvidas – a vantagem da tão proclamada maturidade é que hoje sou atormentada muito mais por minhas certezas!
Mas, na época de minhas espinhas mais abundantes, um amigo de meu pai me apresentou esse escritor. Aquele senhor, que eu já tinha acolhido também como MEU amigo, era – e ainda é! – bastante simpático e comunicativo, e sempre que podíamos, transformávamos nossas conversas de poucos minutos em lembranças de horas extremamente agradáveis! Ele tinha uma pasta preta, e dentro dela carregava uma infinidade de folhas, cada uma com um desenho ou um texto diferente.
Nesse dia, em especial, ele tirou esse poema, IF, da pasta. Segurou a folhinha com uma das mãos, e ergueu o outro braço de forma solene, tentando assumir ares de orador. De primeira, achei a cena interessante e até engraçada, até porque ser imprevisível era o q ele tinha de mais previsível!
Só consigo descrever nosso encontro até aí, pois quando ele começou a ler o texto, eu fui brutalmente tomada por aquelas palavras e mergulhei em uma espécie de transe! É impressionante como esse poema me afeta de forma devastadora! Lembro que a minha sensação, enquanto ele lia e aparentemente gesticulava, era de estar desbravando, descobrindo, me transformando.
Ele deve ter percebido a minha reação – ou a ausência dela – e, ao fim de sua leitura, deu-me a folhinha. Na época, tirei algumas cópias, transcrevi o poema para alguns cadernos, de forma que sempre o tinha perto de mim para ler e tentar resgatar a mesma emoção daquele momento.
Hoje, já não preciso usar desses artifícios, tenho o poema salvo em documento de Word em meu computador, mas ainda guardo aquela folhinha meio rasgada e amarelada, como prova de que existia vida antes de tanta tecnologia.
Muito tempo depois foi que tive a curiosidade de pesquisar sobre o Rudyard Kipling. Na verdade, por um bom tempo eu evitei para não me decepcionar, pois dificilmente qualquer outra obra dele me apaixonaria naquela intensidade. De qualquer forma, descobri, dentre outras coisas, que ele nascera na Índia, em Bombaim (eu sinto um estranho prazer em pronunciar essa palavra. Pego-me agora repetindo-a em voz alta enquanto digito!), e em 1984 lançou O livro da selva, que se tornou internacionalmente um clássico para crianças, também conhecido pelo seu personagem principal: o pequeno Mowgli.
Brindemos, então, a Rudyard Kipling, e à tentativa de seguir os conselhos de um pai a seu filho sobre como ser um homem de bem.

SE

Se és capaz de manter tua calma, quando,
todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,
de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho!


Rudyard Kipling

19 de abr. de 2006

Pimenta de Cheiro e Flor de Maracujá



Mulher...
Minha primeira lembrança dela deve ser de meus quatro, cinco anos, na casa de meu avô, eu correndo com meus primos nos domingos de almoço da família, subindo na goiabeira ou chorando quando ela passava Merthiolate em meu joelho machucado. Na verdade, a primeira lembrança que me vem conscientemente é o aroma de pimenta de cheiro e flor de maracujá que ela exalava. Certamente – e há fotos que confirmam as minhas suspeitas – tivemos muitos outros momentos de cumplicidade anteriores, quando ela sorria e me pegava no colo, eu ainda bebê, maravilhada, desde já, com toda aquela beleza também sorria, desdentadamente. Essa admiração me perseguiu e existe até hoje dentro de mim, e foi fundamental em minha formação como mulher. Mas, nessa época, eu ainda não sabia da força que ela tinha, não sabia que era uma mulher destemida, com o propósito, muitas vezes, de contrariar os outros para satisfazer seus sonhos e desejos – sempre ilimitados! Não sabia eu que ela tivera, ao mesmo tempo, sete namorados, até que conhecera meu avô, e resolvera, com ele, dividir felicidades e agruras.
Mas, voltando aos domingos de almoço... lembro do quintal – todas as crianças deveriam ter direito a um quintal! - , e de um quartinho construído nos fundos, com uma grande escada – pra criança, todas as dimensões são mirabolantes - , onde meu tio mais velho morara durante sua juventude, antes de casar. Ignorávamos esse fato, e até duvidávamos! Eu e meus primos sempre imaginamos que dentro daquele quartinho, de paredes brancas descascadas, havia um laboratório secreto, cheio de tubos de ensaio e porções ferventes e esfumaçantes, como as do Visconde de Sabugosa.
Sempre fui muito ligada a eles. Meu avô, sempre delicado, amoroso, beijoqueiro e ciumento; ela, sempre disciplinando e ordenando, reclamando da postura, do jeito de andar... Hoje, ao lembrar disso, vejo como a fusão dos dois me deu todo o amor que eu precisava, e constato que fui uma criança insuportavelmente feliz!
Com ela, eu ia de mãos dadas ao centro da cidade, onde entrávamos em inúmeras lojas, provávamos centenas de roupas e calçados, muitas vezes sem nada comprar, e depois, não satisfeitas, lanchávamos caldo de cana com bolo de saia – para mim, a parte favorita do passeio!. Perdi a conta das vezes que confundiram-nos com mãe e filha, para orgulho de ambas, tamanha a semelhança física. Mas era verdade, eu era ela, ela era eu, duas frações de uma única pessoa, caminhando juntas. Ela me obrigava a comer os alimentos de que eu não gostava, mas supostamente faziam bem à saúde. Ela segurava a minha mão quando eu não tinha equilíbrio para andar sozinha, ela me guiava na vida, e era impossível imaginar-me sem ela.
Os anos foram passando, e eu, que costumava olhar para cima para sempre admirar aquela bela e forte mulher, acabei tendo que curvar o pescoço para beijá-la. Não fazemos mais os passeios ao centro da cidade, são muito cansativos, e os shopping centers são uma alternativa bem mais confortável. Substituímos o bolinho de saia e o caldo de cana pelo sanduíche natural e o suco de frutas com soja. Mas continuamos sendo uma. Eu sou ela, e ela, eu. Eu a obrigo a comer alimentos de que ela não gosta, mas supostamente fazem bem à saúde. Eu seguro a sua mão quando ela não tem equilíbrio para andar sozinha. Hoje, ela já não me guia na vida. Somos como dois golfinhos nadando, lado a lado, em sincronia.
Os anos nos fizeram bem, continuamos sendo uma só, em idades diferentes, vivendo-as simultaneamente. Recentemente, ela deu provas de que é bem mais forte do que qualquer um pudesse imaginar. Qualquer um, menos eu! Desde pequenininha, quando senti pela primeira vez aquele aroma de pimenta de cheiro e flor de maracujá, eu já sabia: a minha vovó é imortal!

12 de abr. de 2006

A Arte de Comer Caranguejo

Comer caranguejo é uma arte. Arte porque, haja cuidado, haja técnica, haja desleixo... sim, você vai se sujar! Comer caranguejo, então, é a arte da lambança, uma homenagem ao sabor e ao rosto melado.
Comer caranguejo começa muito antes de sentar e degustá-lo. Começa num dia de sol, bonito e quente, de preferência um domingo. Começa com os telefonemas para convocar os participantes do banquete tropical. Começa na vontade de sentar com os amigos, em uma palhoça na praia, tomar água de côco (cerveja,guaraná...) bem gelada, sentindo o cheiro de bronzeador de cenoura que a moça da mesa ao lado está usando.
Amigos e pessoas próximas, sim. Nunca fiz amigos comendo brócolis... Comer caranguejo é um ato íntimo, de pessoas que têm cumplicidade – para primeiros encontros românticos e demais situações delicadas, existe o higiênico e civilizado ensopado de caranguejo!. Mas este, apesar de saboroso, não substitui o caranguejo propriamente dito. Nada substitui o prazer de arrancar dos recipientes ensopados de caldo e verduras o fumegante e vermelho caranguejo, queimar os dedos, ralá-los tentando quebrar as patas, salpicando em você – porém não apenas em você! – o caldo, lamber os dedos, travar uma luta para conseguir tirar dali algumas migalhas de sua saborosa carne... e é nessa hora que você percebe como a Lei de Murphy é perfeita, quando algum celular na mesa, que há horas não tocava, resolve disparar, e ninguém está de mãos limpas para atendê-lo. E entre um caranguejo e outro, risadas gostosas, um delicioso banho de mar, uma partida de frescobol, encontros inesperados, chuva de areia causada por crianças que brincam, o triângulo do vendedor de dindin, de doce, de amendoim, de ostras, de picolé Kibon...
Exausto, após dezenas de batidas, de patas, de lambe-dedos, do sol e do cheiro de cenoura (sim, a moça ao lado decidiu fritar, e passa mais uma porção do bronzeador!) você decide comer, e pede um ensopado, uma batata-frita, um peixe... algo para “complementar” a refeição.
Termina mais um domingo na praia, divertido, saboroso e inesquecível!! Teclo agora com os dedos machucados, da minha investida de hoje... dedos machucados, porém alma extremamente feliz!!

5 de abr. de 2006

O Garçom de Botequim Que Falava Francês e Outros Acontecimentos da Semana

Em meio a uma semana calma e comum, deparei-me com o garçom de botequim que falava francês! Não vou negar que esse fato realmente ficou entre os marcantes da semana, afinal, não é todo dia que vemos um poliglota servindo em mesa de bar pequeno e barato!

Adoro botequins, e isso não é novidade. Poucas mesas, tira-gostos baratos, bebida em doses sempre maiores que nos demais estabelecimentos (e com variedade limitada), e as boas surpresas! Não é em todo lugar que podemos ter a minha satisfação de poder tomar uma crush, ou um guaraná Baré, ou ainda nos aventurarmos a provar uma marca de cerveja cuja melhor propaganda mais parece um calendário de oficina mecânica de beira de estrada!.

Da mesa onde eu estava – na calçada, sempre! - , via um DVD de um show de axé, ou forró – ignoro- , mas era um dos dois, pois tinha aquelas interessantíssimas bailarinas de cabelos tingidos e micro-saias brancas, dançando com parceiros que deviam ter metade de seu peso.

E nesse momento chega o garçom. Garçom de botequim é sempre extremamente simpático, ou está sempre correndo, para atender, sozinho, os seis pedidos feitos de uma vez... uma pinga na mesa um; um frango a passarinha na mesa 2 (mas vê lá, hein, garçom, não vai me trazer só asa de frango!). Nesse caso, o garçom era uma estranha fusão dessas duas características. Chegou em meio aos torpedos das outras mesas para atender a minha. Eu, freguesa cativa de botequim, já estava com o meu pedido na ponta da língua, para que o pit stop do garçom não fosse além do planejado. Quando o pedido foi prontamente atendido, soltei um distraído merci beaucoup, que foi rebatido com um instantâneo il n´y a pas de quoi.

Esse breve diálogo não me perturbou durante três vodkas, quando comecei a refletir sobre o ocorrido. O que leva um garçom de botequim a falar francês?, será que ele também responderia em alemão, russo ou japonês?. Senti uma quase irresistível vontade de chamá-lo para conversar sobre os mais diversos assuntos que me afobaram durante essa semana: desde o banimento do leite da merenda das escolas públicas americanas até a bombástica noticia anunciada pelas indústrias de brinquedos de que a Barbie estaria se reconciliando com o Ken, anos após tê-lo trocado por um bonequinho metrossexual de meia tigela... Teria a Barbie cansado da falta de conteúdo do namorado?, estariam as crianças americanas com o colesterol alto justamente por causa do leite, e não dos sanduíches do McDonald´s?? Creio que só uma pessoal com um perfil tão pitoresco quanto esse garçom poderia entender as minhas dúvidas e buscar comigo soluções alentadoras! Mas me controlei, não o chamei! Em vez disso, diverti-me – enquanto ainda havia vodka em meus devaneios – tentando imaginar onde ele havia aprendido francês, e com que finalidade, e, sobretudo, por que ele era garçom de botequim! Seria ele um agente secreto, procurando pescar confissões de clientes que freqüentam botequins achando ser lá um lugar seguro para se conversar sobre os mais escusos assuntos?, teria ele perdido seu emprego e seu grande amor, e nada mais lhe restava se não servir caldinho de peixe e cerveja morna?

Fui dormir ainda com a mente iluminada (por várias cores) por todas essas conjecturas, ignorando que provavelmente ele escutou essa frase de algum cliente, ou pretende seguir carreira de garçom em algum cafe na França – juntando o que ganha de gorjeta, claro!

29 de mar. de 2006

Ao Som de "Carinhoso"


Sexta-feira à noite.

Estou aqui em casa, aproveitando o silêncio quebrado pelo saxofone do vizinho. É sempre uma sensação gostosa ouvi-lo, e me inspira sempre a escrever bobagens.

Ele sempre toca "Carinhoso", em um ritmo mais lento. Não posso assegurar q ele é um mestre em tocar tal instrumento, mas é gostoso ouvi-lo, ele vai conversando com a partitura, pouco a pouco fazendo as pazes e a devorando. Momento melhor é qdo ele acaba de tocar. Explico-me: não estou com isso tentando dizer q é um alívio ele acabar. Muito pelo contrário, o silêncio posterior sempre me dá oportunidade de ficar lembrando da melodia, repassando-a mentalmente e é claro, acrescentar detalhes ao antes sucedido q só minha imaginação fértil e ociosa é capaz!

Mas hoje deparei-me com uma surpresa: o meu saxofonista favorito (q nem sei q idade, preferências ou sexo tem) resolveu, sem nem mesmo saber, me pregar uma peça. Já estava eu aguardando ele começar a tocar "carinhoso", e eu mentalmente começar a acompanhá-lo com "Meu coração...", qdo, de repente, ele se rebela contra as minhas presunções e começa tocando o tema da Pantera Cor de Rosa.

Senti-me inicialmente traída, não vou negar! Desses medos q sentimos qdo algo novo, q foge à rotina q conhecemos - e q no fundo sempre aguardamos q aconteça - finalmente acontece. Mas, pouco a pouco, - pra ser sincera em uma fração mínima de segundos -, já estava feliz por ele aumentar o "nosso" repertório. Já fechei os olhos e comecei a imaginar nosso mais novo dueto. Enquanto aqui escrevo, tenho a agradabilíssima confirmação q a música seguinte é nada mais, nada menos q nossa velha conhecida "Carinhoso". Aaaaaaaaaaai, q deleite bom, como é bom abrir as portas e voltar pra casa. O novo nos dá sempre essa oportunidade. De valorizarmos aquilo q já temos!

Estamos agora na nossa fase 3. Ele (ou ela?), o q estará fazendo nesses minutos q sucedem de silêncio?, estará pensando, como eu?, estará gozando dos instantâneos e preciosos minutos q sucedem de silêncio?, estará tb repassando toda a melodia mentalmente pra ver se a retém, exatamente como foi tocada?...

Não sei.

Alegro-me de termos - eu e ele - mais um convidado para a nossa festa. A partir de hoje aguardarei sempre q ele toque essas suas músicas, para completar minha sexta à noite e fechar sempre mais uma semana - de dores ou delícias.

E, agora, de olhos fechado e imaginando tudo isso, fico me perguntando como duas pessoas podem se completar por alguns instantes - como acontece comigo nesses breves momentos de sexta à noite - e fico tentado imaginar qtas outras duas pessoas podem estar compartilhando de momentos assim nesse exato momento tb.

22 de mar. de 2006

Gianechini


Aos primeiros dias de novembro deste ano, houve uma comemoração de aniversário lá no meu trabalho. A minha chefe estava presente, e resolveu relatar um fato que ocorrera com a sua filha - deve ter entre 8 e 12 anos... não tenho certeza!
Mas o fato é que a menina se apaixonou perdidamente pelo Gianechini... perdidamente mesmo!!!!! Em meio aos nossos disfarçados risos, ela contava como tudo acontecera: a menina, certo dia, chegara para a mãe e confessara seu incondicional e febril amor pelo belo rapaz, que sem ele não conseguiria mais viver, que precisava ir vê-lo pessoalmente, que sem isso não conseguiria mais viver.
Nesse mesmo momento, eu pensava: como é bom ser criança, como nos iludimos e pensamos coisas tão bobas, sem nenhum sentido, intangíveis, e eu, em minha infinita arrogância, tive pena da pirralha... pena, como a gente tem de alguém, que anseia algo impossível, ridículo e inimaginável a qualquer pessoa com o mínimo senso.
Então, parei e pensei em minha vida... há poucas semanas, eu acompanhava a trajetória de um certo escritor. Apaixonei-me perdidamente por suas idéias, por suas contradições, por seu (único) sotaque, por seu jeito de movimentar seus lindos lábios e suas expressivas sobrancelhas... Horrorizada, e ao mesmo tempo admirada, comparei-me àquela pirralha. Qual a diferença entre nós???. Não sejamos ingênuos... muitas! Primeiramente, a facilidade de aceitar o fato e achá-lo extremamente normal. Segundamente, porque, apesar de, no fundo do meu ser, eu desejar desesperadamente que houvesse qualquer possibilidade de eu conhecê-lo, infelizmente, para a minha eterna e desgraçada constatação, eu percebi que eu cresci, e um dos maiores temores que eu tinha na minha vida se tornou realidade: eu deixei de acreditar!!!
Ai que dor!! Ai que desilusão!! Ai, que raiva de mim mesma! Apesar de eu desejar, desesperadamente, jamais eu sentiria aquele fio de esperança (saudável), da possibilidade, e me vi morta, sepultada, em meu sentimento.
Sentimento que eu só poderia compartilhar com aquela pirralha, que provavelmente não me criticaria, que me entenderia, que sofreria e alimentaria esperanças comigo.
Senti-me tão agradecida por esse (ridículo?) sentimento, que não me deixava dormir, comer, viver (e eu imaginava que o Gianechini provocava o mesmo sentimento nela).
O fato é que, na minha razão de adulta, tenho a certeza de que nunca poderei conhecê-lo, nem mesmo tirar uma foto e ser feliz para sempre, e nem poderei comprovar se a paixão se resume à admiração ou se é realmente dessas febres que nos consomem para sempre (pára com isso! Nem aos 15 anos, você teria direito a pensar essas bobagens!!)
E, de repente, flagrei-me com inveja daquela pirralha de não sei bem quantos anos, mas que tinha seus mais (ainda) livres sonhos, aspirações, desejos – realizados ou não, mas com muita fé!. E eu, adulta, “equilibrada”, “ponderada”, apenas me sentia extremamente frustrada e com aquele infinito e desolador, desesperado medo (ou certeza!) de que nunca teria meu sonho realizado. Talvez seja isso que me falte... a inocência de acreditar no impossível... pois afinal... quando menos se espera... ele pode nos surpreender e acontecer... será que estamos preparados para vivê-lo?????
Enquanto isso,fico aprisionada aqui, em meu corpo de 30 anos, e com aquela vergonhosa intenção de “regredir” aos meus 12 anos e acreditar que os sonhos podem se tornar realidade, e poderei sorrir, por meros e eternos 10 minutos.
E, caso haja, ainda, alguma dúvida... o Gianechini esteve aqui em minha cidade... e a sonhadora pirralha hoje dorme feliz, e menos atormentada do que eu, abraçada com o seu troféu , a tão desacreditada - e até então risível - foto tirada com seu “muso”.

15 de mar. de 2006

O Que Judah Diria a Raskólvikov




Raskólnikof, aos 23 anos, professor de línguas, universitário e residente em São Petersburgo, larga tudo e entrega-se à miséria absoluta, acreditando em uma teoria desenvolvida por ele, e ele mesmo estando disposto a prová-la.

No mundo, segundo ele, existem duas subdivisões de pessoas: as ordinárias e as extraordinárias. Segundo o próprio personagem, “à primeira, pertencem , em geral, os conservadores, os homens de ordem, que vivem na obediência e têm por ela um culto. (...) O segundo grupo compõe-se apenas de homens que transgridem a lei, ou tentam transgredi-la, segundo os casos. Naturalmente os seus crimes são relativos e de uma gravidade variável” .

Raskólnikof acreditava fazer parte do segundo subgrupo. Acreditava que, tendo recursos financeiros, a que custo fosse, tinha a acrescentar à sociedade e à História algo que justificasse os meios de alcançar esses subsídios primários.

Ao descobrir que não era como Napoleão ou César, e que não seria absolvido pela História, nem – principalmente – por si mesmo – Raskólvikof passa por processos de auto flagelação pelas atrocidades cometidas. Nesse percurso, somos convidados a visitar, com ele, becos, tabernas e pequenos cômodos fétidos, povoados de personagens miseráveis – financeira ou espiritualmente - que lutam para preservar sua dignidade contra as várias formas da tirania, como Razumikine; ou seu orgulho e status social, como Petróvitch.

Essa riquíssima narrativa, com tons existencialistas e niilistas, nos leva a questionar em que se constitui, realmente, o castigo. O castigo ao crime - antes de ser a punição aplicada pela sociedade, em busca da pretensa redenção moral - é o caminho que o leva a ela. Ao contrário do que poderia imaginar, todo o tormento físico e psicológico de Raskólnikof consiste na culpa, na não-aceitação, na auto-punição moral ao que fez, ao ponto de ele mesmo precisar se entregar. A partir desse momento, quando lhe é aplicado o castigo da sociedade, acomete-se sobre ele uma sobriedade e percepção de crescimento, de redenção dele para consigo mesmo, e em conseqüência, para com a sociedade com que vive. Nas próprias palavras de Dostoievski, “aqui começa uma segunda história, da lenta transformação da um homem, de sua regeneração, da sua passagem gradual de um mundo para o outro, travando relações com uma nova e até agora completamente desconhecida realidade”.



...



Judah Rosenthal, oftalmologista e um dos pilares da sociedade Nova Iorquina em que vive, vê-se sufocado por um dilema, ao ver seu mundo prestes a desabar quando sua amante, Dolores, ameaça revelar ao público o relacionamento extraconjugal e uma fraude financeira cometida pelo médico, quando o mesmo tenta pôr fim ao caso.

O dilema consiste no dualismo de sentimentos, no conflito vivido por Judah, quando se vê em volta de seus abafados valores religiosos e morais, que julgava não possuir, enfatizados pela voz de seu pai vindo de sua mais distante infância “os olhos de Deus tudo vêem” (terá sido por isso que ele tenha se tornado oftalmologista???). Aturdido com as ameaças da amante, ele busca aconselhamento com o rabino Ben, seu amigo e paciente, e com o irmão, não isento de ligações com pessoas do crime organizado. Enquanto o primeiro – que Woody Allen faz com que, não por acaso, sofra de uma doença que fatalmente irá levá-lo à cegueira (mas nem por isso ficando ele cego à razão!) - lhe sugere a confissão dos pecados; o segundo propõe uma solução mais pragmática: o assassinato da amante, o que acaba sendo posto em prática. Judah baseia-se, então, para justificar seu ato, na frase que considero mais forte do filme: “Deus é um luxo ao qual não posso me dar!”.

Judah, assim como Raskólnikof, faz parte do primeiro subgrupo de seres humanos. A angústia pelos seus erros o consome, e isso o leva a um limbo moral que quase faz com que ele se entregue.

Woody Allen, no seu melhor estilo Ingmar Bergman, proporciona ao seu personagem um desfecho que provavelmente desagradaria Dostoievski. Apesar do crime, da quase confissão e do purgatório moral e quase insustentável a que o personagem é submetido, Judah convive com seus demônios, e, ao longo do tempo, chega até a espaçar a infinita dor e remorso que sente, fingindo por vezes levar uma vida que nunca passou por percalços tão obscuros. Na seqüência final, olhar para o passado através de outro prisma, nos faz perceber o quanto somos capazes de encontrar na vida brilho, mesmo diante de todas as dificuldades:

“Durante toda a nossa vida, enfrentamos decisões penosas, escolhas morais. Algumas delas têm grande peso, a maioria não tem tanto valor assim. Mas definimos nós mesmos pelas escolhas que fizemos. Na verdade, somos feitos da soma total das nossas escolhas. Tudo se dá de maneira tão imprevisível, tão injusta, que a felicidade humana não parece ter sido incluída no projeto da Criação. Somos nós, com a nossa capacidade de amar, que atribuímos sentido a um Universo indiferente. Assim mesmo, a maioria dos seres humanos parece ter a habilidade de continuar lutando e até encontrar prazer nas coisas simples, como sua família, seu trabalho, e na esperança de que as futuras gerações alcancem uma compreensão maior.”



O Livro: Crime e Castigo – Fiódor Dostoievski

O Filme: Crimes and Misdemeanors (Crimes e Pecados) – Woody Allen - 1989

8 de mar. de 2006

Isabel Allende e Seu País Inventado



Acabo de ler MEU PAÍS INVENTADO, de Isabel Allende.

Apaixonei-me – dessas paixões arrebatadoras à primeira vista – por seus romances quando li A CASA DOS ESPÍRITOS, seu primeiro publicado. Desde então, tenho aguardado a cada ano, com a mesma ansiedade com que aguardo um novo filme do Woody Allen, seus novos livros.

Isabel Allende fala em seus romances sobre amor, perdas, sobrevivências, lutas, fé... características visivelmente exacerbadas em nós, latinos! Usa as mãos, mas certamente escreve com o coração. E assim foi também com DE AMOR E DE SOMBRAS, EVA LUNA, CONTOS DE EVA LUNA, O PLANO INFINITO, PAULA (em minha opinião, este e A CASA DOS ESPÍRITOS são imbatíveis!), AFORDITE (uma deliciosa e afrodisíaca mistura de receitas e contos), FILHA DA FORTUNA, RETRATO EM SÉPIA, e tantos outros, também apaixonantes.

É impossível não se envolver com seus personagens excêntricos. Sempre que começo a ler - ou reler – um de seus romances, tenho a sensação que estou sentada, tomando chá em uma tarde nublada de domingo e conversando com ela, seus personagens e fazendo parte de suas tramas. Pego-me freqüentemente frustrada por não poder opinar sobre alguns destinos.

Mas voltando ao MEU PAÍS INVENTADO, Isabel Allende passeia descrevendo a saudade, a nostalgia, o abandono, a vontade de regressar diante da impossibilidade – tema também lindamente descrito pelo Millan Kundera, em A IGNORÂNCIA -, a forma como a nostalgia faz-nos lembrar de coisas que nunca aconteceram, de como lembramos, de forma turva de certos fatos e situações, e, finalmente, de que somos nós os países, as fronteiras, as crenças, os costumes... e carregaremos essa bagagem para onde quer que vamos!

Durante esse passeio pelo livro, fica difícil não se encantar com o Chile, ou com o Chile visto através de seus olhos. Durante a viagem, pegam carona com ela figuras como Pablo Neruda, Violeta Parra, e outros que cantam a dor e o amor de forma belíssima e comum a todos nós.

Não creio ser possível terminar essa leitura e não fazermos, cada um de nós, o perfil de nossas vidas, e de nosso país... inventados!

1 de mar. de 2006

Um Pingo de Pablo



Meu desejo é ter Pablo.
Pablo é um rapaz que conheci há algum tempo. No dia em que o vi dançando, sem a mínima graça ou harmonia, movendo-se de forma despretensiosa, totalmente alheio ao ritmo da música, soube que ele havia sido feito para mim.
Aliás, se eu fosse uma deusa, faria um igualzinho só pra mim. Mas, como Pablo não está à venda - e, certamente, se estivesse, eu não iria querer - , contento-me com o meu Pingo.
Pingo é o meu simpático cachorrinho, com quem brinco e em quem dou banho de mangueira em domingos ensolarados. Desses em que tomamos banho os dois , lambuzados na grama.
Ideal mesmo seria poder fazer esse programinha lambuzada com Pablo. Mas aí já seria outro desejo... serve desejo duplo??????

22 de fev. de 2006

Genealogia

Nasci do casamento do Amor com a Insegurança. Em minha infância, comi meus pais, tentativa frustrada de fugir de minha herança genética.
Meus irmãos - Hipocrisia, Alienação e Prepotência -, pareciam não se importar e não questionar coisa alguma (sim, somos sobrinhos da Dúvida), felizes em seu mundinho cinza. Comi a Hipocrisia e a Prepotência – essa última me proporcionando um dificílimo trabalho de digestão!. Decidi, por cansaço e por achar q não seria prudente, poupar a Alienação. Poderia precisar de um ombro fraterno para muitas situações futuras!
Minha infância foi cinza, tornando-se parda a minha adolescência até que negra a minha entrada na vida adulta. Após um breve e estéril casamento com o Pessimismo, morri. Como sou neta do Esquecimento, e a Morte – segundo me foi dito – não passava de um parente distante – ignorei o fato. Levantei, ainda envolvida em brumas, e segui. Pisei descalça no chão frio, senti o gosto de ferro em minha saliva e excessiva sudorese. Comi algodão. Conheci o Delírio, mas nossa relação durou pouco, pois o injetei em minha veia! Casei com a Dissimulação, e me envolvi extra-conjugalmente com o Fracasso.
Então conheci a Lucidez – na verdade, já éramos velhas conhecidas, mas só prestei realmente atenção nela depois que a Alienação conheceu a Morte. Minha irmã morreu de tédio. Transformou-se, inexplicavelmente. Mudou do estado sólido para o líquido, e finalmente, para o gasoso. Isso tudo em um par de minutos! Tentei sorvê-la, exalá-la, mas ela parecia finalmente ter aceitado seu parentesco - ainda que distante - com a Morte. Senti-me só, e a Lucidez me fez companhia. Uma companhia desagradável, inconveniente, que aparecia sem ser convidada. Essa companhia me custou o Desejo e a Fragilidade – antigos companheiros. Foi então que a Dissimulação pediu divórcio, deixando-me com Insegurança (que herdara o nome da avó) e Auto-Piedade.
Cansada, já com os pés tão gelados, aquele gosto férreo ainda na boca, e banhada de suor, abri os olhos, e percebi que estava com a Morte. Estivera ali durante todo aquele tempo, eu apenas sonhara que não (resquícios ainda de Delírio em minhas veias!). Comi Insegurança e Auto-Piedade (será que eles realmente existiram?), e deitei-me feliz, no chão frio.
Será que existi, será que vivi? Cerrei os olhos e adormeci.

15 de fev. de 2006

O Baile de Máscaras

O Baile de Máscaras


Existem certas coisas que são imperceptíveis aos olhos puros. Coisas essas que só conseguem ser vistas por aqueles que já esqueceram como é bom ser criança.
O menino entrou em casa, como fazia diariamente. Mas, ao abrir a porta, deparou-se com uma nova situação, nunca vista por ele antes, muito menos em sua casa. O que está havendo mamãe? – perguntou o menino ao ver todas aquelas pessoas com aqueles adornos estranhos cobrindo suas faces e conversando alegremente, como se fosse uma festa. Não que ele tivesse algo contra festas, mas algo havia naquela, em especial, que o desagradava, e ele não sabia exatamente o que era. Talvez tenha sido isso que o tenha desconfortado ao entrar em casa, naquela estranha festa aquele dia: a incerteza de seus sentimentos. Ele estava se deparando com uma nova situação, até então desconhecida para ele: a incerteza, um sentimento do qual as crianças , seres de coração puro, são protegidas, pois em suas vidas só existe lugar para a sinceridade, o amor, o carinho, o fascinante mundo de descobertas, de Robinson Crusoé; de princesas salvas por valentes príncipes de ferozes dragões; da casa feita de doces da malvada bruxa; das tardes de domingo na casa da avó, comendo biscoitos ainda quentinhos e subindo na goiabeira; das inúmeras brincadeiras inventadas na hora para divertir amigos recém descobertos; de mertiolate no corte do joelho; do beijo de boa noite da mãe... Enfim, um mundo sem mentiras ou frustrações , de sinceridade e verdade. Mundo este que as pessoas costumam esquecer quando crescem, para dar lugar às coisas mais “sérias” da vida. Some, então, o prazer de andar abraçado na chuva, de se lambuzar comendo aquela fruta gostosa e de dar aquela gargalhada sincera, daquelas que ressoam lá no fundo do nosso coração.
Ao ouvir a pergunta do filho, a mãe, então, surpreendeu-se. Ué, filho, qual é o problema? É o nosso baile de máscaras!. O menino, então, olhou para a mãe, e custou a reconhecê-la. Calma, filho, entre e bote também a sua máscara. O menino hesitou ainda por um momento, não estando por completo adaptado àquela nova situação. Mas, de repente, lhe ocorreu que aquele baile de máscaras sempre existira, não só ali em sua casa, mas em todos os lugares, só que ele, com sua mente pura e seu coração inocente, era incapaz de perceber ou de fazer parte daquele estranho baile. A vida é o palco, onde fazemos o nosso baile e botamos nossas máscaras. Máscaras essas que até hoje ele não precisara usar, pois , a ele, bastava ser ele mesmo.
Ele percebeu, então, que, a partir de agora, teria que fazer permanentemente parte daquela festa. Para cada situação, para cada baile, ele teria que usar uma máscara diferente. Em casa, usaria a máscara de bom filho, bom irmão. Em seu colégio, a máscara de aluno aplicado ; com os amigos, a máscara de homem valente, capaz de enfrentar grandes desafios; em seu trabalho, a máscara de homem sério ; com a família, a máscara de homem devoto e preocupado; com a esposa, a máscara de homem apaixonado... enfim, são tantas as máscaras que a partir de agora ele vai ter que usar, que vai chegar um dia em que ele vai parar, se olhar no espelho., e não vai se ver, não vai se encontrar, pois , naquela confusão, naquela troca interminável de máscaras, ele esqueceu como era o seu rosto, e ao se ver não se reconheceu. Não soube, sequer, se aquilo que estava sendo refletido no espelho era a sua face, ou mais uma das inúmeras máscaras que estava acostumado a usar.
Bem vindo, você também, ao baile de máscaras!